No conhecido texto “O mal-estar na civilização” (1930), Freud se debruça longamente sobre as fontes de sofrimento humano, sendo as relações humanas a principal delas. Considerando o seu último dualismo pulsional, Freud demonstra que a cultura é um processo que se desenrola na humanidade a serviço de uma força que pretende juntar indivíduos isolados, famílias, etnias, povos e nações numa grande unidade, a da humanidade, a cujo programa se opõe a tendência de tomar o próximo como objeto sexual, explorá-lo, humilhá-lo, infligir dor, torturá-lo e matá-lo. Tais forças pulsionais correspondem, respectivamente, a:
- A)Eros e Morte;
Correta: Eros é a pulsão de ligação e a pulsão de morte é a tendência agressiva e destrutiva descrita por Freud.
- B)narcisismo e autoerotismo;
Errada: narcisismo e autoerotismo são conceitos ligados à constituição do eu e da libido, não ao último dualismo pulsional.
- C)libido de objeto e libido do Eu;
Errada: libido de objeto e libido do Eu tratam da direção da libido, não das duas forças pulsionais centrais do texto.
- D)pulsões do Ego e pulsões sexuais;
Errada: pulsões do Ego e pulsões sexuais remetem a um dualismo mais antigo de Freud, anterior a Eros e pulsão de morte.
- E)autoconservação e libido.
Errada: autoconservação e libido não correspondem ao dualismo pulsional final usado em “O mal-estar na civilização”.
Gabarito: A
Em “O mal-estar na civilização”, Freud mostra que viver em sociedade cobra um preço: para existir cultura, o ser humano precisa conter impulsos que, em estado bruto, fariam a convivência virar um caos. É aí que entra o seu último dualismo pulsional, formado por Eros e pela pulsão de morte. Eros é a força de ligação, de união, de construção de vínculos. Ela empurra os indivíduos para se aproximarem, formarem famílias, grupos, povos e, em tese, uma humanidade mais integrada. Já a pulsão de morte aponta para a tendência oposta: agressividade, destruição, ataque ao outro e até autodestruição. No trecho da questão, a primeira força descrita como aquilo que “pretende juntar” indivíduos isolados corresponde a Eros. A segunda, que leva a tomar o próximo como objeto sexual, humilhá-lo, torturá-lo e matá-lo, corresponde à pulsão de morte. Por isso o gabarito é a alternativa A. Esse raciocínio está alinhado à doutrina freudiana do texto de 1930, em que a civilização nasce justamente do conflito entre a exigência de ligação e a tendência agressiva. Em prova, quando aparecer cultura, laço social e agressividade, pense nesse duelo clássico: Eros querendo unir e a pulsão de morte puxando para a ruptura.