Jorge relatou ao psicólogo Luiz que havia marcado a consulta com ele a pedido da esposa Lúcia, mas tinha dúvidas quanto a precisar de um tratamento para alcoolismo. Jorge admitiu que vinha abusando do uísque mas justificou que atravessava uma fase de estresse na empresa e precisava relaxar ao chegar em casa. Considerando a teoria e a técnica da entrevista motivacional, é correto afirmar que:
- A)Luiz deverá persuadir Jorge a buscar a abstinência de álcool como condição prévia para dar início ao tratamento psicoterápico;
Errada, porque a entrevista motivacional não começa com imposição de abstinência nem com persuasão direta, mas com acolhimento da ambivalência.
- B)a atitude de Jorge de negação de sua dependência alcoólica contraindica a adoção da técnica de entrevista motivacional;
Errada, porque negar o problema não contraindica a entrevista motivacional; ao contrário, é justamente um cenário em que ela costuma ser útil.
- C)Jorge se encontra no estágio de manutenção do comportamento adicto, e o psicólogo precisará deixar a pré-contemplação do problema e agir;
Errada, porque manutenção não é a fase descrita no enunciado, já que Jorge ainda não consolidou mudança alguma e continua justificando o uso.
- D)Jorge está na fase da contemplação, na qual se mostra ambivalente quanto a tomar a decisão de empreender uma mudança;
Certa, porque Jorge demonstra ambivalência: reconhece o abuso, mas ainda não decidiu mudar de forma firme, o que é típico da contemplação.
- E)Luiz adotará a escuta empática para confrontar Jorge com sua resistência em abandonar o uso do álcool como fuga dos problemas.
Errada, porque a entrevista motivacional valoriza escuta empática, mas não para confrontar de forma direta; o confronto tende a aumentar resistência.
Gabarito: D
A entrevista motivacional é uma técnica usada quando a pessoa está ambivalente: uma parte reconhece o problema, mas outra ainda resiste a mudar. O foco do psicólogo não é brigar, nem dar sermão, nem impor abstinência como condição para começar a conversa. O objetivo é criar um clima de escuta empática, fortalecer a motivação interna e ajudar o paciente a enxergar, com menos defesa, a distância entre o comportamento atual e os próprios objetivos de vida. Nesse tipo de abordagem, a resistência do paciente não é tratada como teimosia a ser esmagada, mas como um sinal clínico de que ele ainda está oscilando entre manter e mudar. Por isso, a técnica trabalha com perguntas abertas, reflexões e acolhimento, evitando confrontos diretos que costumam aumentar a defesa. É bem a lógica do "vamos conversar sem transformar a sala em tribunal". No caso, Jorge admite o abuso de álcool, mas ainda minimiza o problema e justifica o uso como resposta ao estresse. Isso mostra ambivalência: ele já percebe algum custo, mas não assumiu plenamente a necessidade de mudança. Em termos do modelo transteórico de Prochaska e DiClemente, isso caracteriza a fase de contemplação, na qual a pessoa reconhece o problema, porém ainda não decidiu agir de forma consistente. Por isso, o gabarito é a letra D. Ela descreve exatamente esse momento de hesitação e conflito interno, que é o terreno típico da entrevista motivacional. As demais alternativas erram ao tratar a técnica como confronto, imposição ou fase inadequada do processo de mudança.