Freud lança mão de um mito, desde o seu conhecido texto Totem e Tabu (1912-13), para descrever que na pré-história da civilização humana havia aquele que exercia o poder tirânico de gozar de todas as mulheres, frente ao qual os filhos se reúnem para cometer o crime originário. A partir de então, é estabelecido o pacto civilizatório que organiza as linhagens familiares através do interdito entre as gerações. Tal mito é o
- A)do bom selvagem.
Errada, porque o mito do bom selvagem é uma ideia filosófica associada a Rousseau, não ao texto freudiano Totem e Tabu.
- B)de Moisés.
Errada, porque o mito de Moisés aparece em outra obra de Freud e trata de outro eixo teórico, não da cena originária da horda.
- C)do complexo de Édipo.
Errada, porque o complexo de Édipo é um conceito psicanalítico, não o mito usado para narrar a origem da civilização em Totem e Tabu.
- D)de Eros e Tanatos.
Errada, porque Eros e Tânatos são pulsões fundamentais em Freud, mas não o mito específico descrito no enunciado.
- E)do pai da horda primeva.
Certa, porque o enunciado descreve exatamente o mito do pai da horda primeva, morto pelos filhos após concentrar o poder e o gozo.
Gabarito: E
Em Totem e Tabu, Freud usa um mito para pensar a origem da vida social e das regras que limitam o desejo. A ideia é simples e poderosa: antes da ordem civilizatória, haveria uma figura de pai todo-poderoso, que concentrava o gozo e o comando, deixando os filhos em posição de submissão. Isso serve como imagem do excesso de poder e do desejo sem freio. Segundo o mito freudiano, os filhos se unem, matam esse pai da horda e, depois do crime, sentem culpa. A partir daí, nasce o pacto civilizatório: surgem a proibição do incesto, o interdito entre as gerações e a organização simbólica da família e da cultura. Em outras palavras, a civilização não começa com um abraço coletivo, mas com um conflito bem feio e depois muita culpa para organizar a casa. Por isso, o mito referido no enunciado é o do pai da horda primeva. Ele é central na teoria freudiana para explicar a origem do totemismo, da lei e da repressão dos impulsos. Não é um mito literário qualquer, mas um recurso teórico de Freud para pensar como a cultura se estrutura a partir da renúncia pulsional e da interdição. Esse tema aparece diretamente em Totem e Tabu e se conecta à noção de complexo de Édipo, mas não é a mesma coisa: o Édipo é a formulação do desejo infantil, enquanto a horda primeva é o mito antropológico usado para explicar a fundação da civilização.