Desde a terceira revisão do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais da Associação Psiquiátrica Americana (DSM – III), houve um abandono da noção de “psicose” enquanto categoria que designava uma classe de patologias diferente da “neurose”. Essa inflexão representou uma mudança de paradigma, cujo efeito foi
- A)o fortalecimento de uma perspectiva complexa e psicodinâmica que articula os discursos da psiquiatria biológica, da teoria cognitivo comportamental e das neurociências.
Errada: o DSM-III não fortaleceu a perspectiva psicodinâmica; fez justamente o oposto ao reduzir sua centralidade.
- B)o estabelecimento de definições dos distúrbios que contemplam os fatores culturais, históricos, socioeconômicos e políticos na descrição das características clínicas.
Errada: embora fatores culturais possam ser considerados, essa não foi a mudança principal provocada pelo DSM-III.
- C)a redução do número de categorias diagnósticas baseadas em pressupostos ateóricos que se norteiam pelo paradigma biológico.
Errada: o manual não reduziu categorias por se nortear pelo paradigma biológico; ele ampliou a descrição ateórica e operacional dos transtornos.
- D)o enfraquecimento da descrição das doenças mentais apoiada nos pressupostos psicodinâmicos em favor de uma abordagem fisicalista da patologia mental.
Certa: a mudança foi o enfraquecimento da leitura psicodinâmica e a valorização de uma abordagem mais descritiva e fisicalista da patologia mental.
- E)a consolidação do movimento de normalização do sofrimento humano articulado ao processo de desmedicalização da existência.
Errada: o DSM-III não teve como efeito a desmedicalização do sofrimento, mas sim a sua maior medicalização e classificação diagnóstica.
Gabarito: D
A virada do DSM-III foi bem importante: ele abandonou a velha lógica que separava os transtornos em duas grandes caixas, a da “psicose” e a da “neurose”. Em vez de explicar o sofrimento mental por uma leitura psicodinâmica ampla e por vezes pouco padronizada, o manual passou a buscar descrições mais objetivas, observáveis e padronizadas dos quadros clínicos. Isso ajudou a tornar o diagnóstico mais uniforme entre profissionais, o que é ótimo para pesquisa, estatística e comparação de casos. Essa mudança de paradigma não significou uma volta a explicações profundas de cunho psicanalítico, nem uma valorização do contexto cultural como eixo central da definição diagnóstica. Pelo contrário: o movimento foi de enfraquecimento dos pressupostos psicodinâmicos e de fortalecimento de uma linguagem mais descritiva e, em grande medida, fisicalista/biológica da patologia mental. Em sala de aula, pense assim: saiu a explicação do “por que interno e inconsciente” como centro do manual e entrou a descrição padronizada dos sintomas. Por isso, o gabarito é a alternativa D. Ela capta exatamente o efeito histórico do DSM-III: menos dependência de modelos psicodinâmicos e mais aproximação de uma abordagem biomédica, com transtornos definidos por critérios operacionais. Essa virada é uma marca da psiquiatria contemporânea e ajuda a entender por que o DSM ficou tão influente no mundo todo.