Angélica viveu por muitos anos em um hospital psiquiátrico onde foi internada em função de uma “crise de nervos”. As visitas da família foram se espaçando até que cessaram totalmente e não há notícia de contatos nos últimos quinze anos. A desinstitucionalização psiquiátrica de Angélica poderá ser conduzida
- A)após a busca ativa para sua reintegração familiar à família nuclear ou extensa.
Errada, porque a reintegração familiar não pode ser presumida quando não há vínculos ativos há muitos anos e a desinstitucionalização não depende obrigatoriamente da família.
- B)por meio da transferência para casa de custódia inserida em sua comunidade de origem.
Errada, porque casa de custódia não é dispositivo da reforma psiquiátrica para reinserção social, mas sim uma lógica institucional e restritiva, incompatível com o cuidado em liberdade.
- C)pelo acolhimento em serviço residencial terapêutico para sua reinserção social.
Certa, porque o Serviço Residencial Terapêutico é a alternativa prevista para pessoas egressas de longa internação psiquiátrica, favorecendo autonomia e reinserção social na comunidade.
- D)pelo encaminhamento para comunidade terapêutica que favoreça a convivência entre os pares.
Errada, porque comunidade terapêutica não é o dispositivo indicado para esse cenário de longa institucionalização psiquiátrica e não substitui a rede de atenção psicossocial do SUS.
- E)por meio da alta hospitalar da paciente e seu encaminhamento para tratamento ambulatorial.
Errada, porque alta hospitalar com seguimento ambulatorial pode ser insuficiente para alguém que perdeu totalmente os vínculos e precisa de moradia assistida e suporte psicossocial mais intenso.
Gabarito: C
A desinstitucionalização psiquiátrica não significa apenas tirar a pessoa do hospital e pronto, como se bastasse abrir o portão e dizer "vai com Deus". A lógica da Reforma Psiquiátrica brasileira é substituir o modelo manicomial por cuidado em liberdade, com reinserção social e rede territorial de atenção. Isso vem na linha da Lei 10.216/2001, que protege os direitos da pessoa com transtorno mental e prioriza tratamento comunitário sempre que possível. Quando a pessoa passou muitos anos internada, perdeu vínculos familiares, sociais e comunitários. Nesses casos, a saída adequada não é forçar uma reintegração familiar inexistente nem mandá-la de volta ao hospital por outra via. O caminho é oferecer suporte real para reconstrução de laços e autonomia no território. É exatamente aí que entra o Serviço Residencial Terapêutico (SRT): moradia assistida na comunidade, destinada a pessoas egressas de longas internações psiquiátricas e sem suporte familiar suficiente. Ele faz parte da rede substitutiva do SUS e funciona como dispositivo de reabilitação psicossocial, favorecendo convivência, autonomia e reinserção social. Por isso, o gabarito é a alternativa C. Angélica, após tantos anos institucionalizada e sem contato familiar, deve ser acolhida em serviço residencial terapêutico, e não simplesmente "devolvida" à família ou tratada como caso de internação eterna. A ideia central é cuidado em liberdade com suporte concreto, não abandono disfarçado.