Existe um paradoxo no campo dos direitos humanos, pois as pessoas e os grupos subjugados creem participar da mesma liberdade e igualdade das elites que, por sua vez, preferem manter seus privilégios de classe. Nesse contexto, a noção de implicação, advinda da análise institucional francesa, é um instrumento importante para pensar a articulação da psicologia com os direitos humanos e política. Tal noção corresponde ao fato de a intervenção do psicólogo
- A)se manter numa posição neutra e científica durante as observações e análises realizadas.
Errada, porque a análise institucional não defende neutralidade absoluta; ao contrário, questiona a ideia de um observador totalmente externo e imparcial.
- B)perscrutar o inconsciente individual e coletivo sem permitir a interferência da contratransferência.
Errada, porque a noção de implicação não se resume a uma postura clínica de controle do inconsciente ou da contratransferência, e sim ao lugar ocupado pelo interventor nas relações institucionais.
- C)militar em favor de direitos humanos que sejam universais, naturais e absolutos.
Errada, porque o foco não é um militância abstrata por direitos humanos universais e absolutos, mas a análise crítica da posição do psicólogo nas relações de poder e nas instituições.
- D)colocar em análise o lugar que ocupa nas relações sociais e não apenas do objeto sobre o qual se intervém.
Certa, porque a implicação exige que o psicólogo analise o próprio lugar nas relações sociais e institucionais, reconhecendo que ele também faz parte do processo de intervenção.
- E)delimitar o objeto de forma definida para, assim, implicar o sujeito investigado em suas relações sociais.
Errada, porque a definição fechada do objeto não expressa a noção de implicação; o ponto central é justamente problematizar a posição do sujeito que intervém, e não apenas delimitar o objeto estudado.
Gabarito: D
A noção de implicação, na análise institucional francesa, pede que voce não finja estar acima da cena como um observador neutro de laboratório. A ideia central é outra: o profissional precisa examinar o lugar que ocupa na instituição, seus interesses, seus valores, seus vínculos e até os efeitos que produz na relação de intervenção. Em vez de achar que “apenas analisa o outro”, ele também se analisa no processo. Isso é muito importante em Psicologia Institucional e em debates sobre direitos humanos, porque toda intervenção acontece dentro de relações de poder. Se voce ignora sua própria posição social, profissional e política, corre o risco de reforçar exatamente o que pretende transformar. A análise institucional francesa critica a falsa neutralidade e mostra que ninguém intervém fora da história, da classe, da instituição e das forças sociais. Por isso, o gabarito é a alternativa D. Ela traduz bem a ideia de colocar em análise o lugar que o psicólogo ocupa nas relações sociais, e não apenas o objeto sobre o qual intervém. Em outras palavras: não basta olhar para o paciente, o grupo ou a instituição; voce precisa olhar também para si mesmo dentro desse jogo. Esse ponto dialoga com a tradição da análise institucional e com autores como René Lourau e Georges Lapassade, que destacam a implicação do pesquisador/interventor. A crítica vai na direção oposta da neutralidade técnica pura e simples: a intervenção é sempre situada, e reconhecer isso é parte do trabalho.