A judicialização da vida vem colocando em ação práticas cada vez mais segregativas. A sociedade civil e a população em geral tornam-se alvos permanentes de intervenção governamental com o objetivo de prolongar a duração da vida, de um lado, e de outro, multiplicar para alguns o risco de morte ou decretar a morte política. A questão central passa então a ser: como deixar morrer aquilo que não serve à vida? Trata-se de uma gestão caracterizada por Michel Foucault como:
- A)necropolítica;
Necropolítica se aproxima da ideia de decidir quem pode morrer, mas o enunciado está pedindo o conceito foucaultiano de gestão da vida, que é biopoder.
- B)repressão;
Repressão é uma forma genérica de coerção, mas não expressa a lógica mais ampla de administração dos corpos e das populações descrita no texto.
- C)anomia;
Anomia se refere à perda ou enfraquecimento de normas sociais, não a uma técnica de poder sobre a vida e a morte.
- D)soberania;
Soberania é um poder clássico de mandar e punir, porém o enunciado destaca a gestão moderna da vida, característica do biopoder.
- E)biopoder.
Biopoder é o conceito de Foucault para o poder que administra a vida, regula populações e organiza quem deve viver, adoecer ou morrer.
Gabarito: E
Michel Foucault usa o conceito de biopoder para descrever uma forma moderna de exercício do poder que não se limita a mandar matar, mas passa a administrar a vida das pessoas e das populações. Em vez de só reprimir, o Estado e outras instituições passam a organizar nascimentos, saúde, sexualidade, disciplina dos corpos e controle dos riscos. É o poder que entra na vida cotidiana com cara de cuidado, mas também de vigilância. Na lógica do biopoder, o foco deixa de ser apenas o território e passa a ser a população. Por isso, surgem práticas de gestão da vida: políticas sanitárias, estatísticas, campanhas de normalização e intervenções sobre quem deve viver melhor, por mais tempo e em quais condições. Em Foucault, isso aparece como um poder que "faz viver e deixa morrer". A questão descreve justamente essa gestão da vida e da morte política: prolongar a vida de alguns, enquanto outros são expostos ao risco, à exclusão ou à morte social. Isso é biopoder, porque o poder atua sobre a vida como objeto de administração, e não apenas como força de repressão. Então, o gabarito é a letra E. As demais alternativas até podem lembrar temas do controle social, mas nenhuma nomeia tão bem essa tecnologia de poder focada na administração da vida coletiva.