Falar de criminalidade, de violência, tornou-se de uma extrema banalidade no nosso cotidiano. Ouvimos, ou lemos, horrorizados relatos de crimes assombrosos [...], sendo que alguns nos impressionam pela capacidade criativa do assassino em elaborar cenários e roteiros tão sádicos quanto sofisticados. Juntam-se a isto, os avanços tecnológicos das últimas décadas – a informação ao alcance de todos, difundida ao vivo em tempo real, sobretudo via internet –, o aumento demográfico do planeta, as desigualdades sociais, e as catástrofes naturais, todos estes são alguns dos fatores que contribuíram tanto para globalizar e banalizar a violência e a criminalidade quanto para dar-nos a impressão de que nunca foram tão grande. (Ceccarelli, M., 2019. Contribuições da Psicopatologia Fundamental para a Criminologia. p. 330. Disponível em: https://www.ceccarelli.psc.br/texts/contribuicoes-da-psicopatologia-fundamental-para-a-criminologia.pdf. Acesso em: janeiro de 2024.) O fragmento de texto auxilia no entendimento de alguns pontos envolvidos na relação entre psicopatologia e comportamento criminoso. Considerando o fragmento e a referida relação, assinale um dos pontos citados como existentes na relação de forma correta.
- A)A psicopatologia fundamental abdica da importância da interdisciplinaridade na análise do comportamento criminoso.
Errada, porque a psicopatologia fundamental valoriza a interdisciplinaridade na análise do comportamento criminoso, e não a dispensa.
- B)A psicopatologia fundamental propõe que todos os tipos de comportamentos criminosos podem ser explicados por fatores genéticos.
Errada, porque não existe explicação exclusivamente genética para todos os comportamentos criminosos; essa visão é reducionista.
- C)Na psicopatologia fundamental, a análise das dimensões subjetivas dos transtornos mentais é essencial para a compreensão dos comportamentos criminosos.
Certa, pois a compreensão das dimensões subjetivas dos transtornos mentais é central para entender comportamentos criminosos.
- D)A intervenção psicológica em indivíduos com transtornos de personalidade deve focar apenas em tratamentos farmacológicos para prevenir comportamentos criminosos.
Errada, porque a prevenção e o cuidado não se limitam a tratamento farmacológico, especialmente em transtornos de personalidade.
- E)O texto destaca que a compreensão dos transtornos mentais é secundária para a criminologia, já que o comportamento criminoso é determinado por influências sociais.
Errada, porque o texto não trata a compreensão dos transtornos mentais como secundária; ao contrário, ela é parte importante da análise da criminalidade.
Gabarito: C
A relação entre psicopatologia e comportamento criminoso não pode ser vista de forma simplista, como se bastasse olhar só para o crime em si ou só para o diagnóstico. Na psicopatologia fundamental, o foco está em compreender a experiência subjetiva do sujeito, isto é, como ele vive, sente, organiza seus conflitos e dá sentido ao seu sofrimento. Isso ajuda a entender por que certos atos violentos podem aparecer em contextos de ruptura psíquica, sofrimento intenso ou organização de personalidade muito comprometida. Em concursos, a banca costuma cobrar justamente essa ideia: o comportamento criminoso, em muitos casos, não é explicado por uma única causa. Entram em cena fatores psicológicos, sociais, históricos e, em alguns casos, biológicos. Por isso, a interdisciplinaridade é importante. Reduzir tudo à genética, ao remédio ou apenas ao social costuma ser uma armadilha clássica. O gabarito C está correto porque a psicopatologia fundamental valoriza a análise das dimensões subjetivas dos transtornos mentais para compreender o comportamento humano, inclusive quando ele se expressa em atos criminosos. Ou seja, não basta rotular o sujeito; é preciso entender a lógica interna do sofrimento e da atuação violenta. Essa abordagem conversa com a criminologia crítica e com a ideia de que o ato criminoso também pode ser lido como expressão de uma história psíquica e social. Em resumo: a psicopatologia não serve só para nomear transtornos, mas para ampliar a compreensão do sujeito. E, no tema violência, isso faz toda a diferença.