As doenças renais agudas e crônicas são altamente prevalentes e representam causas importantes de morbimortalidade. Em relação à doença renal crônica (DRC), à luz da Diretriz BRASPEN de Terapia Nutricional no paciente com doença renal, publicada em 2021, é correto afirmar que
- A)a recomendação de energia é de 10-15 kcal/kg/dia para pacientes metabolicamente estáveis, baseado em idade, sexo, atividade física, estado nutricional, estágio da DRC e comorbidades associadas.
Errada: a recomendação energética em DRC estável é muito maior do que 10-15 kcal/kg/dia, que é um valor incompatível com manutenção nutricional.
- B)a dieta com, aproximadamente, 0,3-0,4 g/kg/dia de proteína suplementada com cetoanálogos, ou aminoácidos essenciais, para pacientes com DRC G4-5 diminui o risco de falência renal, e reduz a proteinúria.
Certa: em DRC G4-5, a dieta com 0,3-0,4 g/kg/dia de proteína suplementada com cetoanálogos ou aminoácidos essenciais pode reduzir proteinúria e ajudar a retardar a progressão da doença em pacientes selecionados.
- C)para pacientes adultos com DRC G3-5D, maior ingestão de fósforo deve ser indicada na presença de hiperfosfatemia persistente; além disso, a ingestão alimentar de sódio recomendada é de menos de 7,0 g/dia.
Errada: na hiperfosfatemia a conduta é restringir fósforo, não aumentar, e a meta de sódio também está superestimada para a dieta renal.
- D)os aportes de energia e proteínas para crianças com DRC G2-5 são semelhantes àquelas saudáveis, para a idade cronológica, mas no seu limite inferior; para adolescentes, é recomendada restrição proteica, independentemente do grau de DRC.
Errada: em crianças e adolescentes com DRC, a oferta energética e proteica deve preservar crescimento e desenvolvimento, e não impor restrição proteica indiscriminada.
- E)a recomendação de energia e nutrientes depende do período do transplante renal (TR); no TR imediato e em caso de rejeição aguda do enxerto, a recomendação de proteínas é de 2,1 a 4,5 g/kg de peso atual ou ideal.
Errada: no transplante renal, as necessidades proteicas variam conforme a fase, mas a faixa indicada na alternativa está excessiva e fora do recomendado.
Gabarito: B
Na doença renal crônica, a nutrição entra como uma peça central do tratamento, porque ela ajuda a atrasar a progressão da doença, controlar sintomas e reduzir complicações metabólicas. Aqui, a banca foi bem na linha das diretrizes: ela gosta de testar o que está liberado, o que está restrito e, principalmente, o que parece plausível mas está exagerado ou invertido. Em adultos com DRC, a estratégia clássica em fases mais avançadas, especialmente G4 e G5, é reduzir proteína com cuidado, sem fazer "fome terapêutica". A BRASPEN 2021 admite dieta muito hipoproteica, em torno de 0,3 a 0,4 g/kg/dia, desde que suplementada com cetoanálogos ou aminoácidos essenciais, justamente para ajudar a diminuir a carga nitrogenada e a proteinúria, com potencial de retardar a progressão da doença em pacientes selecionados. Por isso o gabarito é a letra B. O raciocínio é: menos proteína, mas com suporte adequado, para não jogar o paciente no buraco da desnutrição. Em nutrição renal, o truque nunca é cortar por cortar; é ajustar com precisão de relojoeiro, porque excesso e falta cobram a conta. As demais alternativas misturam números errados e condutas trocadas. A dieta renal não pede energia de 10 a 15 kcal/kg/dia, não se orienta aumentar fósforo na hiperfosfatemia, e nem faz sentido restringir proteína em adolescentes independentemente do estágio da DRC. No pós-transplante, também há aumento de necessidade proteica, mas não nessa faixa absurda proposta pela letra E.