Leia o trecho a seguir. É relativamente recente a ideia de política cultural com a abrangência que lhe atribuímos hoje. Seu ponto de partida foi a tomada de consciência de que a qualidade de vida nem sempre melhora com o avanço da riqueza material. (...) Refiro-me aos segmentos populacionais que, embora conheçam uma significativa elevação do seu nível de vida material, continuam prisioneiros de estreitos padrões culturais. FURTADO, Celso. O capitalismo global. São Paulo: Paz e Terra, 1998. O trecho acima articula a questão do desenvolvimento com a importância das políticas culturais. Com base no texto, assinale a afirmativa correta.
- A)O avanço econômico é diretamente responsável pelo desenvolvimento cultural de uma sociedade.
Errada: o texto nega que o avanço econômico produza, por si só, desenvolvimento cultural.
- B)A qualidade de vida está desvinculada do desenvolvimento econômico, dado que é uma realidade cultural.
Errada: o autor não separa qualidade de vida de desenvolvimento econômico, mas mostra que a renda sozinha não basta.
- C)Os bens culturais produzem riqueza material, pois são fundamentais para o progresso econômico.
Errada: a frase inverte a lógica do trecho, pois bens culturais não aparecem como simples geradores de riqueza material.
- D)A melhoria do padrão de vida material da população traz a consequência do empobrecimento cultural.
Errada: o texto não afirma que melhorar o padrão material leva ao empobrecimento cultural, e sim que isso pode não alterar padrões culturais estreitos.
- E)O desenvolvimento social requer tanto o acesso a bens culturais quanto aos recursos econômicos.
Certa: o trecho defende que desenvolvimento social depende tanto de recursos econômicos quanto de acesso e valorização de bens culturais.
Gabarito: E
O texto de Celso Furtado faz uma crítica bem conhecida: crescer economicamente não significa, automaticamente, melhorar a vida em sentido amplo. Dá para aumentar renda, consumo e infraestrutura, mas ainda assim manter desigualdades, exclusão simbólica e acesso precário à cultura. Por isso, política cultural não é enfeite de governo; ela entra como parte do desenvolvimento humano e social. Na visão do trecho, desenvolvimento de verdade não cabe só no bolso. Ele envolve também acesso a bens culturais, formação, memória, identidade, participação e possibilidade de produzir e fruir cultura. Sem isso, a sociedade pode até ficar mais rica materialmente, mas continuar presa a padrões culturais estreitos, como o próprio autor destaca. É exatamente por isso que o gabarito é a letra E. Ela resume a ideia central do texto: o desenvolvimento social precisa combinar recursos econômicos com acesso a bens culturais. Um lado sem o outro deixa o projeto incompleto, como um carro com motor forte, mas sem volante. Essa leitura dialoga com a noção moderna de desenvolvimento humano, que não se reduz ao crescimento do PIB. Em políticas públicas, cultura é tratada como dimensão estruturante da cidadania, porque amplia repertórios, oportunidades e pertencimento social.