Lia o trecho a seguir. Pode-se afirmar, assim, que um determinado conceito de nação agenciou o surgimento das práticas preservacionistas no país, as quais têm impactos até os dias atuais, sobretudo se considerarmos a narrativa de identidade nacional desenhada pelos bens patrimoniais tutelados pelo Estado. Mas isso não impede dizer que dinâmicas de transformação, com novos pensamentos que permeiam anseios sociais que conclamam a representatividade da diversidade cultural, não tenham ocorrido em paralelo e tomado força ao longo da trajetória de atuação do Iphan nos seus oitenta anos de existência. TOLENTINO, A. B. Educação patrimonial decolonial: perspectivas e entraves nas práticas de patrimonialização federal. Sillogés, vol. 1, nº 1, 2018. Com base na crítica aos pressupostos das políticas preservacionistas brasileiras apresentada no trecho acima, assinale a afirmativa correta.
- A)As práticas brasileiras são marcadas por uma tensão entre centralização e demandas por representatividade.
Correta, porque expressa a tensão entre o modelo centralizador de preservação e as demandas por maior representatividade cultural.
- B)A identidade nacional que informa as políticas tradicionais de preservação está aberta à diversidade.
Errada, porque o texto critica justamente a narrativa identitária tradicional, e não diz que ela já estava aberta à diversidade.
- C)As políticas preservacionistas no Brasil surgiram de demandas sociais amplas por representatividade cultural.
Errada, porque o surgimento das políticas preservacionistas no Brasil não decorreu de demandas amplas por representatividade, mas de uma lógica nacionalista estatal.
- D)A diversidade cultural tem sido o eixo central das práticas preservacionistas brasileiras desde sua origem.
Errada, porque a diversidade cultural não foi o eixo central desde o início; ela ganhou força de forma posterior e em disputa com o modelo tradicional.
- E)As iniciativas do Estado brasileiro vêm apresentando um modelo historicamente estável de preservação.
Errada, porque o texto destaca mudanças e transformações ao longo do tempo, e não um modelo historicamente estável.
Gabarito: A
A questão gira em torno da formação das políticas de preservação no Brasil e da crítica ao seu fundamento histórico. O texto lembra que a ideia de nação orientou, por muito tempo, o que deveria ser preservado, o que acabou produzindo uma narrativa oficial de identidade nacional. Na prática, isso fez com que certos bens e memórias ganhassem destaque enquanto outros ficaram à margem, especialmente os ligados à diversidade cultural e a grupos historicamente pouco representados. No campo da Museologia e do patrimônio, isso é bem importante: preservação não é um ato neutro. Ela envolve escolhas, valores e disputas sobre o que merece ser lembrado como “patrimônio da nação”. Por isso, quando o texto fala em dinâmicas de transformação e em novas demandas sociais por representatividade, ele aponta para a tensão entre um modelo mais centralizador e as pressões por reconhecimento da pluralidade cultural. É exatamente aí que a alternativa A acerta. Ela traduz essa convivência de forças opostas: de um lado, o peso histórico de políticas preservacionistas centradas no Estado e numa identidade nacional mais homogênea; de outro, a cobrança crescente por incluir diferentes grupos, memórias e expressões culturais. Essa leitura dialoga com a crítica contemporânea às políticas patrimoniais brasileiras, muito presente em debates sobre patrimônio imaterial e abordagens decoloniais. As demais alternativas erram porque transformam em regra aquilo que o trecho critica: a abertura plena à diversidade, a origem social ampla das políticas ou uma estabilidade histórica do modelo. O ponto central é justamente o contrário: houve um padrão tradicional forte, mas ele passou a ser tensionado por novas demandas sociais e culturais.