Ressaltamos que não se deve entender a preservação do patrimônio e a conquista do desenvolvimento sustentável como objetivos conflitantes. O conceito de patrimônio é, na verdade, fundamental à lógica do desenvolvimento sustentável, uma vez que reflete aquilo que as pessoas valorizam para sustentar e melhorar sua qualidade de vida. Iphan. Patrimônio cultural e desenvolvimento sustentável. Brasília, DF: Iphan, 2012. (Adaptado). Assinale a opção que descreve corretamente a concepção de patrimônio exposta no trecho acima.
- A)Conjunto de bens culturais preservados pelos órgãos governamentais com base em decisões técnicas.
Errada, porque reduz patrimônio a bens culturais preservados por decisão técnica do Estado, deixando de lado a dimensão comunitária e vivencial.
- B)Espaços e vivências de interação contínua e construção de memória entre comunidade e ambiente.
Certa, pois expressa patrimônio como relação contínua entre comunidade, memória e ambiente, em linha com a visão contemporânea do tema.
- C)Registros das transformações exercidas pela atividade humana sobre os ambientes naturais.
Errada, porque descreve mais uma leitura de transformação do ambiente pela ação humana do que a concepção de patrimônio mencionada no trecho.
- D)Acervo cultural pertencente ao Estado, que deve ser protegido das alterações contemporâneas.
Errada, porque trata patrimônio como acervo estatal fixo e intocável, visão incompatível com a ideia dinâmica e social do texto.
- E)Objetos e práticas que ligam uma sociedade à memória das conquistas de gerações passadas.
Errada, porque restringe patrimônio a objetos e práticas do passado, sem destacar a interação viva entre comunidade, memória e território.
Gabarito: B
Aqui a banca trabalha uma ideia de patrimônio bem mais moderna do que a noção antiga de “coisa velha que deve ficar parada”. Patrimônio, na perspectiva atual adotada pelo Iphan e pela Constituição de 1988, não é só o prédio tombado ou o objeto guardado em vitrine: ele inclui referências culturais, modos de fazer, lugares, paisagens e relações sociais que têm valor para uma comunidade. Ou seja, patrimônio é aquilo que ajuda as pessoas a reconhecer sua identidade, sua memória e sua continuidade no tempo. Por isso o trecho fala em desenvolvimento sustentável sem conflito com a preservação. A lógica é simples: se o patrimônio expressa o que as pessoas valorizam para sustentar e melhorar a qualidade de vida, então ele faz parte do próprio desenvolvimento, e não é um obstáculo a ele. Essa é a pegada da Convenção da Unesco de 1972, da Convenção para a Salvaguarda do Patrimônio Cultural Imaterial de 2003 e do discurso patrimonial contemporâneo, que amplia o foco para os vínculos entre cultura, território e comunidade. A alternativa B capta exatamente isso ao falar em espaços e vivências de interação contínua e construção de memória entre comunidade e ambiente. Ela não reduz patrimônio a um acervo físico nem a uma posse estatal; ela entende patrimônio como experiência social vivida, que se constrói no cotidiano e na relação com o lugar. É o patrimônio como processo, não como peça de museu isolada. Então, quando a questão usa a ideia de desenvolvimento sustentável, ela está apontando para uma concepção de patrimônio ligada à vida das pessoas, à memória compartilhada e ao uso responsável dos bens culturais e naturais. Em resumo: patrimônio não é só conservar, é manter sentido, vínculo e pertencimento.