No início de 2024, foi publicada uma atualização que redefiniu os critérios para sepse e choque séptico em Pediatria, baseando-se em critérios de um escore conhecido como “PHOENIX”. Considere um bebê de um ano de idade com peso de 10 kg, apresentando um quadro de pneumonia e tratada com amoxicilina nas últimas 48 horas. Ela foi internada na Unidade de Terapia Intensiva, com escala de coma de Glasgow de 11, desconforto respiratório significativo e palidez cutânea e mucosa. Está com cateter nasal de alto fluxo de oxigênio a 15 litros por minuto com FiO2 de 50%. Dados vitais: frequência cardíaca de 175 bpm; PA de 60 x 36 mmHg; tempo de enchimento capilar de 5 segundos após já ter recebido 40 mL/kg de solução isotônica. A saturação de oxigênio está em 90%, com uma gasometria arterial mostrando PaO2 de 55 mmHg em FiO2 de 50% e lactato de 6,08 mmol/L. Ausculta evidencia crepitações em todo o hemitórax direito, e a radiografia revela condensação nessa área. No hemograma, há 20.000 leucócitos/mm3 com neutrofilia, plaquetas de 100.000/mcL, PCR elevado, tempo de protrombina em 23 segundos (INR 1,9), tempo de tromboplastina parcial ativada em 45 segundos (RN 1,6), fibrinogênio de 90 mg/dL. O D-dímero não foi coletado. Com relação à condição da criança e sua atual classificação, assinale a afirmativa correta.
- A)Escala de coma de Glasgow, pressão arterial média e quantidade de plaquetas estão incorporados para a pontuação no escore de PHOENIX; os níveis de lactato, entretanto, não são considerados na faixa etária pediátrica.
Errada, porque o PHOENIX não se limita a Glasgow, pressão média e plaquetas, e a interpretação do escore pediátrico não exclui a avaliação clínica do lactato no contexto de gravidade.
- B)Pela nova classificação, só é possível o diagnóstico de choque séptico após a introdução de drogas vasoativas.
Errada, porque o choque séptico não depende exclusivamente do uso de drogas vasoativas para existir na classificação clínica atual.
- C)Sabendo-se que o escore PHOENIX é de mais que 1 ponto já é possível a classificação desse quadro como sepse grave.
Errada, porque PHOENIX acima de 1 sugere sepse com disfunção orgânica, mas o termo sepse grave foi abandonado e não é a nomenclatura atual.
- D)Os dados vitais do paciente apontam para o diagnóstico de SIRS (síndrome da resposta inflamatória sistêmica) que é a base para a suspeita diagnóstica de sepse e sua posterior classificação em sepse grave ou choque séptico.
Errada, porque SIRS não é mais a base da suspeita e da estratificação de sepse pediátrica na atualização recente.
- E)Sabendo-se que o escore PHOENIX é de mais que 1 ponto e que há disfunção cardiovascular, é correta a classificação desse quadro clínico como choque séptico.
Certa, porque PHOENIX acima de 1 associado a disfunção cardiovascular sustenta a classificação de choque séptico.
Gabarito: E
A atualização de 2024 mudou a lógica da sepse pediátrica: saiu a dependência de SIRS e entrou a ideia de disfunção orgânica quantificada pelo escore PHOENIX. Na prática, você olha para o contexto infeccioso e para sinais de falência de órgãos: alteração neurológica, instabilidade cardiovascular, insuficiência respiratória e coagulopatia. É mais “organização do caos” do que decorar febre e leucócito como se fosse lista de supermercado. No caso, a criança tem pneumonia e apresenta vários sinais de gravidade: Glasgow 11, hipoxemia com necessidade de alto fluxo e FiO2 elevada, lactato alto, hipotensão, tempo de enchimento capilar prolongado mesmo após volume, plaquetopenia e alteração de coagulação. Isso configura disfunção cardiovascular e também outros domínios comprometidos, o que eleva o PHOENIX acima de 1. O ponto-chave é que, nessa nova classificação, a presença de disfunção cardiovascular associada ao escore PHOENIX > 1 sustenta choque séptico. Ou seja, não basta “estar grave”: há um padrão compatível com sepse com choque, porque a perfusão está ruim, a pressão está baixa e a criança já recebeu reposição volêmica sem resposta adequada. Então o gabarito E está correto porque o caso mostra infecção provável, PHOENIX acima do ponto de corte e disfunção cardiovascular. A banca explora exatamente essa transição conceitual: antes você pensava em SIRS, agora pensa em disfunção orgânica e gravidade hemodinâmica.