Paciente com epilepsia de difícil controle iniciou tratamento com fenitoína (PHT). Após algumas semanas, apresentou sinais de intoxicação, mesmo com doses consideradas habituais. Diante disso, foi solicitado um exame de níveis séricos do fármaco, que revelou valores superiores aos esperados. Sabe-se que a PHT apresenta uma farmacocinética peculiar. Qual das seguintes afirmativas explica esse fenômeno?
- A)A PHT é metabolizada pelo fígado de forma linear, o que facilita o ajuste de dose.
Errada, porque a fenitoína não tem eliminação linear em toda a faixa terapêutica; ela apresenta cinética não linear, o que dificulta o ajuste de dose.
- B)A saturação da via metabólica hepática pode levar a aumentos desproporcionais dos níveis séricos da PHT.
Certa, pois a saturação da via metabólica hepática faz com que aumentos pequenos de dose causem elevações desproporcionais dos níveis séricos.
- C)A PHT tem uma ligação irreversível aos receptores de GABA, o que aumenta sua toxicidade.
Errada, porque a fenitoína não age por ligação irreversível ao GABA; seu mecanismo principal é o bloqueio de canais de sódio dependentes de voltagem.
- D)A eliminação renal da PHT é a principal via de excreção, e sua toxicidade ocorre apenas em pacientes com insuficiência renal.
Errada, porque a principal via de eliminação da fenitoína é hepática, não renal, e a toxicidade não se limita a pacientes com insuficiência renal.
- E)O metabolismo da PHT não sofre interferência de outros fármacos, sendo um medicamento de escolha para terapia combinada.
Errada, porque a fenitoína sofre várias interações medicamentosas por indução e inibição enzimática, além de ligação a proteínas plasmáticas.
Gabarito: B
A fenitoína é um daqueles fármacos que gostam de complicar a vida do candidato: ela tem cinética não linear, também chamada de cinética de Michaelis-Menten. Na prática, isso significa que, em certas faixas de dose, o fígado chega perto da sua capacidade máxima de metabolização e pequenas aumentos de dose podem gerar grandes aumentos no nível sérico. Por isso, um paciente pode usar uma dose aparentemente habitual e, ainda assim, apresentar sinais de intoxicação. Quando a via metabólica hepática satura, o organismo deixa de eliminar o remédio no mesmo ritmo, e a concentração sobe de forma desproporcional. É exatamente essa a explicação pedida na questão. Esse comportamento é clássico da fenitoína e exige ajuste cuidadoso, com monitorização clínica e, quando necessário, dosagem sérica. Não é um fármaco para fazer conta no olho e torcer para dar certo: uma pequena mudança na dose pode virar uma grande mudança no efeito e na toxicidade. Em resumo, o gabarito B está correto porque descreve a saturação da metabolização hepática, que leva ao aumento desproporcional dos níveis séricos da fenitoína. Essa é a essência da farmacocinética peculiar do medicamento.