Homem, 33 anos, procura cardiologista para uma consulta inicial após seu irmão mais jovem ter sido internado e recebido diagnóstico de cardiomiopatia hipertrófica. O paciente pratica atividade física regularmente e joga basquete nos fins de semana. Nega qualquer dor torácica, falta de ar ou tontura durante essas atividades. Exame físico: PA = 130 x 84 mmHg e FC = 73 bpm; bulhas rítmicas a 2t sem sopros, íctus normal e ausência de sopros. Os exames complementares revelam: eletrocardiograma com ritmo sinusal; ecocardiograma revela função normal do ventrículo esquerdo, espessura de parede normal e nenhuma doença valvar cardíaca significativa. Com base nos dados apresentados, qual das seguintes mutações é mais provável de ser encontrada nesse paciente?
- A)Galactosidase alfa (GLA).
Errada: GLA é o gene da alfa-galactosidase A, relacionado à doença de Fabry, que pode causar hipertrofia ventricular, mas não é a mutação típica da cardiomiopatia hipertrófica familiar clássica.
- B)Cadeia pesada de miosina beta 7 (MYH7).
Certa: MYH7 codifica a cadeia pesada da beta-miosina e é uma das mutações sarcoméricas mais comuns na cardiomiopatia hipertrófica hereditária.
- C)Subunidade gama 2 não catalítica da proteína quinase AMP-ativada (PRKAG2).
Errada: PRKAG2 causa uma síndrome de hipertrofia com pré-excitação e distúrbios de condução, um quadro que pode imitar cardiomiopatia hipertrófica, mas não é a resposta clássica do enunciado.
- D)Fibrilina 1 (FBN1).
Errada: FBN1 está associado à síndrome de Marfan, doença do tecido conjuntivo com risco de dilatação de aorta e alterações esqueléticas, não à cardiomiopatia hipertrófica familiar típica.
- E)Subunidade alfa 5 do canal de sódio voltagem-dependente (SCN5A).
Errada: SCN5A é mais ligado a canalopatias e distúrbios do ritmo/condução, como síndrome de Brugada e outras arritmias, não sendo a mutação mais provável neste caso.
Gabarito: B
A cardiomiopatia hipertrófica é, na maior parte das vezes, uma doença genética de herança autossômica dominante, causada por mutações em proteínas do sarcômero. Por isso, quando aparece um caso na família, a investigação dos parentes de primeiro grau entra no jogo, mesmo que a pessoa esteja assintomática e com exame normal por enquanto. Genética adora pregar peças silenciosas: o exame pode estar normal hoje e a alteração aparecer no futuro. Entre os genes mais cobrados, o MYH7, que codifica a cadeia pesada da beta-miosina, é um dos clássicos da cardiomiopatia hipertrófica. Ele está diretamente ligado à estrutura e à contração muscular do miocárdio. Então, num homem jovem, sem sinais de outra síndrome e com irmão já diagnosticado com cardiomiopatia hipertrófica, essa é a mutação mais provável entre as opções apresentadas. As alternativas erradas tentam misturar outras doenças hereditárias do coração e dos vasos. GLA lembra doença de Fabry, FBN1 aponta para síndrome de Marfan, PRKAG2 se associa a fenótipo de hipertrofia com distúrbio de condução e pré-excitação, e SCN5A é mais lembrado em canalopatias e distúrbios elétricos, não como resposta típica de cardiomiopatia hipertrófica familiar. Em resumo: o quadro pede mutação sarcomérica familiar típica de cardiomiopatia hipertrófica, e a escolha mais clássica é MYH7. Se a banca quer o diagnóstico molecular mais “com cara de prova”, ela costuma ir direto nesse gene.