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Medicina · UPENET/IAUPE · 2025

Questão comentada de Medicina

João, 4 anos, vem apresentando comportamento disfuncional na escola, fazendo com que ele bata e morda seus colegas de classe. A professora não foi capaz de identificar estressores claros, mas afirma que a criança apresenta baixo limiar de frustração. Esse comportamento não havia sido descrito anteriormente. A família foi chamada a comparecer à escola, tendo a avó paterna informado que os pais haviam se divorciado há 7 meses e, desde então, a genitora encontra-se sem paradeiro definido, e o genitor vem há 5 meses vivenciando alcoolismo, tendo perdido, inclusive, o emprego. A professora tenta dar algumas orientações, bem como o apoio do pediatra da criança. Três meses após a conversa, a avó, que havia assumido o cuidado, faleceu, e a criança ficou até os 8 anos vivendo de favor na casa de diversos parentes. Qual a possível consequência da situação vivida por esta criança?

Gabarito: D

A questão descreve uma criança exposta a adversidades graves e repetidas na primeira infância, como abandono, alcoolismo parental, perda de cuidador e instabilidade familiar. Esse cenário é clássico de estresse tóxico, aquele que não é bem amortecido por uma rede de proteção e acaba “educando” o organismo para viver em alerta o tempo todo. Em pediatria, isso não fica só no comportamento: altera o desenvolvimento cerebral, a regulação emocional e até o funcionamento do sistema imune e endócrino. Quando o estresse é intenso e prolongado, há impacto na neurogênese, na poda sináptica e em áreas como amígdala, hipocampo e córtex pré-frontal. Na prática, a criança pode apresentar impulsividade, agressividade, dificuldade de aprendizagem, pior controle emocional e maior vulnerabilidade futura a transtornos mentais. Isso é coerente com a ideia de experiências adversas na infância, muito estudada no modelo ACEs (Adverse Childhood Experiences), usado para explicar efeitos de longo prazo na saúde. Além do cérebro, o corpo inteiro sente. A ativação crônica do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal aumenta o chamado custo alostático, que se associa a maior risco de doenças cardiovasculares, metabólicas, imunológicas e respiratórias ao longo da vida. Entre os desfechos descritos, há associação com pior saúde pulmonar e aumento do risco de DPOC, especialmente quando essa exposição se soma a outros fatores de risco. Ou seja, não é “só comportamento difícil”, é biologia sendo moldada pelo ambiente. Por isso, o gabarito D está correto: a situação de adversidade grave e prolongada pode levar a alteração da neurogênese e a maior risco de DPOC na vida adulta. Em termos práticos, a abordagem correta em pediatria seria reconhecer o contexto psicossocial, proteger a criança, intervir precocemente e acionar a rede de suporte. A infância não esquece, e o corpo também não.

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