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Medicina · UERJ · 2022

Questão comentada de Medicina

Mulher de 33 anos, com diagnóstico de asma há cinco anos, veio para consulta médica regular no ambulatório de asma grave, em uso de formoterol com budesonida 6/200mcg, 2 inalações 2 vezes por dia. Relata que, quando necessário, faz uso de resgate, além de montelucaste 10mg, 1 vez por dia de forma contínua. Há quatro meses, havia sido associado tiotrópio 2,5mcg, 2 névoas pela manhã. Na anamnese dirigida, a paciente nega outras comorbidades, além da asma; também nega tabagismo e refere ambiente doméstico limpo e uso regular das medicações, demonstrando habilidade no uso de diferentes dispositivos inalatórios. Refere três idas à emergência com necessidade de uso de curso breve de corticoide oral em todas as ocasiões nos últimos 12 meses. A aplicação do questionário GINA definiu que a paciente está com asma não controlada nesse momento. Ao exame físico, encontra-se em regular estado geral, com sinais vitais normais, abdome globoso, IMC = 39kg/m2, SatO2 = 96% e apresenta sibilos difusos à ausculta respiratória. O restante do exame físico não traz alterações dignas de nota. Exames trazidos pela paciente: IgE sérica total: 6 (normal: inferior a 114kU/L); IgE sérica para pesquisa de cinco diferentes aeroalérgenos: todos menores que 0,1kU/L (normal: < 0,1kU/L); eosinófilo sérico absoluto: 82 células/mm3 (anterior, realizado há dez meses: 44 células/mm3). Exames de imagem sem alterações importantes e espirometria demonstrando distúrbio ventilatório obstrutivo moderado com prova broncodilatadora positiva. Submetida à avaliação da fração exalada de óxido nítrico (FeNO), apresentou resultado: 13ppb (anterior, realizado há seis meses – FeNO: 12ppb). Diante do quadro clínico apresentado, é correto afirmar que:

Gabarito: C

Nesta questão, o ponto central é reconhecer que a paciente tem asma grave não controlada, mas com perfil inflamatório que não sugere asma do tipo 2 (T2). Ela tem IgE muito baixa, testes alérgicos negativos, eosinófilos baixos e FeNO baixo e persistente. Esse conjunto afasta a inflamação eosinofílica/alérgica clássica, que é a que costuma responder melhor aos imunobiológicos mais usados na asma. Quando a asma não é T2, o cenário mais típico é de inflamação não eosinofílica, muitas vezes neutrofílica, associada a obesidade, pior controle clínico e menor resposta a corticosteroide inalatório. Nesses casos, o eixo inflamatório costuma envolver mediadores como IL-6 e IL-8, além de alarminas epiteliais como IL-33 e TSLP. É exatamente essa assinatura biológica que a alternativa C descreve. Por isso, a paciente não está com perfil que sustente indicação direta de biológico do tipo dupilumabe, nem quadro para termoplastia como próximo passo obrigatório. A termoplastia pode ser considerada em asma grave selecionada, mas não é definida por uma simples leitura do FeNO, muito menos como atalho automático quando o fenótipo sugere inflamação não T2. Em resumo: a clínica mostra asma grave e não controlada, mas a fenotipagem laboratorial aponta para asma não alérgica, não eosinofílica, provavelmente com inflamação neutrofílica. A banca quer que você leia os biomarcadores com calma e não caia na tentação de sair escolhendo imunobiológico só porque a asma está difícil.

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