Estima-se que o abuso físico seja responsável por aproximadamente 25% de todas as formas de abuso à criança. Proporcionalmente, é o maior responsável por mortalidade entre as formas de abuso à criança. Na avaliação pericial médico-legal de uma criança com suspeita síndrome do bebê sacudido (shaken baby syndrome), assinale a alternativa incorreta.
- A)A síndrome do bebê sacudido caracteriza-se por lesões do sistema nervoso central e hemorragias oculares provocadas por chacoalhamento de crianças pequenas
Certa: descreve corretamente o quadro típico de trauma craniano abusivo, com lesões do sistema nervoso central e hemorragias oculares por sacudimento.
- B)Idade: a vítima típica costuma ter menos de um ano e, usualmente, menos de seis meses de idade
Certa: a vítima clássica é o lactente, geralmente com menos de 1 ano e, com frequência, menos de 6 meses.
- C)A combinação de hemorragias retiniana e subdural em um lactente ou criança pequena é patognomônica da síndrome do bebê sacudido
Errada: hemorragia retiniana associada à subdural é muito sugestiva, mas não é patognomônica da síndrome do bebê sacudido.
- D)Lesões esqueléticas aparecem em até 50% dos casos, mas sua presença não é requerida para o diagnóstico. Fratura em arco posterior da costela reforça o diagnóstico da síndrome
Certa: lesões esqueléticas podem ocorrer, mas não são obrigatórias, e fraturas de arcos costais posteriores reforçam a suspeita de maus-tratos.
Gabarito: C
A síndrome do bebê sacudido, hoje muitas vezes chamada de trauma craniano abusivo, ocorre quando a criança pequena sofre aceleração e desaceleração bruscas, gerando lesões cerebrais, hemorragias intracranianas e hemorragias oculares. O lactente é o mais vulnerável porque tem cabeça proporcionalmente maior, pescoço mais frágil e pouca capacidade de proteção muscular. Por isso, a vítima típica costuma ser um bebê bem pequeno, geralmente com menos de 1 ano, especialmente abaixo de 6 meses. Na perícia médico-legal, a suspeita aumenta quando há um conjunto de achados compatíveis com agressão, como hemorragia subdural, hemorragia retiniana, rebaixamento do nível de consciência e, em muitos casos, sinais de trauma em outros sítios. Mas aqui mora a armadilha: nenhum achado isolado fecha diagnóstico com certeza absoluta. A medicina legal trabalha com compatibilidade, conjunto de evidências e contexto clínico, e não com fórmulas mágicas. Por isso, a alternativa C está errada. A combinação de hemorragia retiniana e subdural em lactente ou criança pequena é fortemente sugestiva de abuso, mas não é patognomônica. Isso significa que ela não é exclusiva da síndrome do bebê sacudido, podendo aparecer em outras situações, como traumatismos, distúrbios de coagulação e outras condições neurológicas. Em prova, quando aparecer a palavra 'patognomônica', acenda a luz amarela: a banca adora exagerar a certeza diagnóstica. As lesões esqueléticas podem aparecer, mas não são obrigatórias para o diagnóstico, e fraturas de costelas posteriores levantam ainda mais a suspeita de violência. O raciocínio pericial é sempre integrado: história, exame físico, exames de imagem e coerência entre relato e lesões.