Um homem de 44 anos, com histórico de etilismo crônico, vem à emergência com queixa de dor epigástrica intensa irradiada para as costas, acompanhada de náuseas e vômitos há 12 horas. Ao exame físico, encontra-se com FC 110 bpm, PA 110/70 mmHg, Tax 38,5°C, com abdome distendido e doloroso à palpação profunda no epigástrio. Laboratorialmente, observa-se amilase 600 U/L e lipase 900 U/L, além de leucocitose e aumento de PCR. A tomografia computadorizada (TC) de abdome revela edema e alterações inflamatórias ao redor do pâncreas, sem necrose evidente. Após o manejo inicial com hidratação intravenosa vigorosa e analgesia, o paciente mantém-se clinicamente estável. Qual das condutas abaixo é a mais apropriada para o manejo subsequente?
- A)Iniciar antibióticos de amplo espectro profilaticamente para prevenir infecções em necrose pancreática estéril.
Errada, porque antibiótico profilático não é recomendado na pancreatite aguda estéril, mesmo quando há inflamação importante.
- B)Indicar nutrição enteral precoce por via oral ou por sonda, se tolerado, para minimizar o risco de complicações.
Certa, porque a nutrição enteral precoce, inclusive por via oral se tolerada, é a conduta preferida no paciente estável com pancreatite aguda sem complicações.
- C)Realizar intervenção endoscópica imediata para desobstrução do ducto biliar, mesmo sem sinais de colangite associada.
Errada, pois intervenção endoscópica biliar fica reservada para colangite ou obstrução persistente, não para pancreatite sem sinais desses achados.
- D)Solicitar TC de controle a cada 48 horas para monitoramento da evolução e descartar complicações.
Errada, porque TC de controle seriada de rotina não é indicada se o paciente está clinicamente estável e sem piora; a imagem deve ser guiada pela evolução.
Gabarito: B
O quadro é de pancreatite aguda, muito provavelmente de causa alcoólica: dor epigástrica intensa irradiando para as costas, aumento de amilase e lipase, e TC com edema e inflamação peripancreática. Depois da estabilização inicial com hidratação vigorosa, controle da dor e suporte clínico, a conduta seguinte em um paciente estável é alimentar cedo, de preferência por via oral se ele tolerar, ou por nutrição enteral se não conseguir comer. O intestino funcionando é seu aliado aqui, não um inimigo a ser deixado em jejum por tempo demais. Esse é um ponto clássico: na pancreatite aguda leve ou sem complicações, a alimentação enteral precoce reduz complicações, preserva a barreira intestinal e diminui risco de infecção e piora clínica. Em outras palavras, antigamente o paciente ficava em jejum prolongado, mas hoje a lógica mudou: se ele melhorar e tolerar, você reintroduz dieta cedo. Em geral, não é preciso esperar "normalizar tudo" para começar a alimentar. A tomografia não mostra necrose, não há sinais de colangite nem de obstrução biliar a exigir procedimento urgente. Também não há indicação de antibiótico profilático, porque isso não previne infecção em pancreatite aguda estéril e só adiciona risco de efeitos adversos e resistência. Em resumo: paciente estável, pancreatite sem necrose e sem complicação biliar = suporte clínico e nutrição enteral precoce.