Um paciente de 62 anos com histórico de fibrilação atrial apresenta-se no pronto-socorro com hematomas difusos e sangramento nasal espontâneo. Após investigação com familiares, descobriu-se que ele ingeriu propositalmente 30 comprimidos de varfarina há cerca de 12h. Considerando o mecanismo de ação dos cumarínicos e o manejo clínico, qual das seguintes opções é a conduta mais apropriada para esse caso?
- A)Administrar vitamina K por via oral, monitorar o INR e repetir a dose apenas se necessário.
Errada: vitamina K por via oral pode ser usada em situações leves, mas diante de sangramento ativo e ingestão maciça a reversão precisa ser mais rápida e efetiva.
- B)Administrar vitamina K intravenosa e considerar plasma fresco congelado ou concentrado de complexo protrombínico se o sangramento for grave.
Certa: a vitamina K intravenosa corrige o efeito da varfarina, e plasma fresco congelado ou concentrado de complexo protrombínico são indicados se o sangramento for grave ou se for necessária reversão imediata.
- C)Iniciar transfusão de plaquetas imediatamente e administrar carvão ativado.
Errada: plaquetas não corrigem a deficiência dos fatores vitamina K-dependentes, e o carvão ativado já perdeu a janela útil após cerca de 12 horas.
- D)Prescrever ácido tranexâmico e aguardar a normalização espontânea da função de coagulação.
Errada: ácido tranexâmico pode ser adjuvante em alguns sangramentos, mas não reverte o mecanismo da varfarina nem substitui a reposição dos fatores da coagulação.
Gabarito: B
A varfarina é um anticoagulante cumarínico que bloqueia a reciclagem da vitamina K no fígado, reduzindo a síntese dos fatores II, VII, IX e X. Em caso de superdose, o problema não é só o número de comprimidos, mas o risco real de sangramento, que pode variar de hematomas e epistaxe até hemorragia grave. Aqui, o paciente já chegou com sangramento ativo, então não basta observar e torcer para a coagulação voltar sozinha. Com sangramento e intoxicação por varfarina, a conduta mais apropriada é suspender o medicamento e repor vitamina K por via intravenosa; se o sangramento for importante ou houver necessidade de reversão rápida, deve-se associar plasma fresco congelado ou concentrado de complexo protrombínico. A lógica é repor a via da coagulação e corrigir o déficit de forma mais rápida e eficaz. Carvão ativado pode ter utilidade muito precoce em algumas intoxicações por via oral, mas 12 horas depois já não é a medida principal aqui.