Você atende no ambulatório um neonato de 12 dias. O menino está com secreção ocular purulenta e edema palpebral à direita há três dias. Segundo a mãe a secreção surgiu há oito dias sendo, inicialmente, discreta, mas evoluiu para uma secreção espessa, amarelada. O menino nasceu a termo de parto vaginal sem intercorrências. Não há alterações comportamentais, febre, ou outros sinais sistêmicos e o bebê está com bom ganho ponderal e alimenta-se bem. Ao exame físico, observa-se secreção purulenta em grande quantidade, edema bipalpebral e hiperemia conjuntival. Não há sinais de ceratite ou acometimento palpebral, o reflexo pupilar está preservado. Para o quadro desse paciente, a hipótese diagnóstica mais provável é
- A)conjuntivite gonocócica.
Errada, porque a conjuntivite gonocócica costuma surgir mais cedo, nas primeiras 24 a 48 horas de vida, e tem evolução mais fulminante.
- B)conjuntivite herpética.
Errada, porque a conjuntivite herpética costuma vir com lesões vesiculares, ceratite e maior comprometimento ocular, o que não foi descrito.
- C)conjuntivite por Chlamydia.
Certa, porque a conjuntivite por Chlamydia trachomatis costuma aparecer entre 5 e 14 dias de vida, com secreção mucopurulenta e bebê geralmente sem febre ou toxemia.
- D)conjuntivite química.
Errada, porque a conjuntivite química aparece logo após o nascimento, relacionada à profilaxia ocular, e tende a ser autolimitada.
- E)hordéolo.
Errada, porque hordéolo é uma infecção localizada da pálpebra e não explica o quadro de conjuntivite neonatal com secreção purulenta abundante.
Gabarito: C
Em neonato com conjuntivite purulenta, o tempo de início dos sintomas ajuda muito a acertar a causa. Quando o quadro aparece entre 5 e 14 dias de vida, a principal suspeita é conjuntivite neonatal por Chlamydia trachomatis, que costuma começar de forma mais insidiosa e vai ficando mais intensa com secreção mucopurulenta e edema palpebral. O bebê, em geral, não fica toxemiado e pode estar bem disposto, exatamente como no enunciado. Já a conjuntivite gonocócica costuma ser mais precoce e mais agressiva, geralmente nas primeiras 24 a 48 horas de vida, com secreção muito abundante, edema importante e risco de ceratite e perfuração. Aqui isso não bate tão bem, porque o quadro começou depois e não há sinal de acometimento corneano. A conjuntivite herpética também costuma preocupar mais por lesões vesiculares, ceratite e maior gravidade ocular, o que não apareceu no caso. A conjuntivite química é bem cedo, logo após o nascimento, por causa da profilaxia ocular, e tende a ser autolimitada. Hordéolo, por sua vez, é doença de glândula palpebral e não explica esse quadro de conjuntivite neonatal purulenta. Ou seja, o relógio do caso entrega a resposta: início por volta da primeira semana de vida, evolução progressiva e bebê sem repercussão sistêmica apontam para Chlamydia. Na prática, vale lembrar que a conjuntivite por Chlamydia pode coexistir com pneumonia afebril do lactente nas semanas seguintes, então o acompanhamento é importante. Em prova, a banca gosta justamente dessa pista temporal: não basta olhar a secreção, você precisa perguntar quando começou e como evoluiu.