Você é chamado para realizar uma sala de parto cesariana eletiva, sem que a mãe tenha entrado em trabalho de parto, de uma menina de 39 semanas de gestação. O Apgar foi 8 no primeiro minuto e 9 no quinto minuto. Após 30 minutos de vida, a menina apresentou taquipneia com 75 incursões por minuto, leve gemência expiratória e retrações subcostais. O exame físico revela bebê acianótica, com saturação de oxigênio de 92% em ar ambiente, tórax simétrico, sem murmúrios adventícios, frequência cardíaca de 140 bpm, temperatura de 36,8 C, e perfusão periférica preservada. Você solicita um raio-X de tórax que revelou hiperinsuflação pulmonar, com congestão vascular peri-hilar e leve aumento do líquido nas fissuras interlobares. Nesse caso, o diagnóstico mais provável e a conduta a ser tomada são, respectivamente,
- A)síndrome do desconforto respiratório neonatal e surfactante exógeno.
Errada, porque a síndrome do desconforto respiratório neonatal é mais típica de prematuros e cursa com deficiência de surfactante, não com este padrão radiológico de líquido nas fissuras e hiperinsuflação.
- B)taquipneia transitória do recém-nascido e monitorização clínica e oxigenoterapia, se necessário, com expectativa de melhora em 24-72 horas.
Certa, pois o quadro é típico de taquipneia transitória do recém-nascido após cesárea eletiva, com melhora esperada em 24 a 72 horas e suporte clínico conforme necessidade.
- C)pneumonia neonatal precoce e iniciar antibioticoterapia empírica com ampicilina e gentamicina.
Errada, porque não há sinais clínicos ou radiológicos que apontem para pneumonia neonatal precoce, e o quadro é mais compatível com retenção de líquido pulmonar do que com infecção.
- D)cardiopatia congênita e solicitar ecocardiograma.
Errada, porque o início logo após o nascimento, em RN a termo, com RX sugestivo de líquido residual, favorece causa pulmonar transitória e não cardiopatia congênita.
- E)hipertensão pulmonar persistente do recém-nascido e iniciar oxigênio com alta concentração e considerar a ventilação mecânica.
Errada, porque a hipertensão pulmonar persistente costuma causar hipoxemia mais importante e sinais de gravidade, o que não é o caso aqui.
Gabarito: B
Aqui a pista mais importante é o contexto: recém-nascido a termo, cesariana eletiva, sem trabalho de parto, com início de desconforto respiratório logo nas primeiras horas de vida. Isso aponta fortemente para taquipneia transitória do recém-nascido, que é basicamente um atraso na reabsorção do líquido pulmonar fetal. Em cesáreas sem trabalho de parto, esse líquido costuma permanecer mais tempo no pulmão, deixando o bebê taquipneico, com leve gemência e retrações, mas geralmente com boa perfusão e melhora espontânea. O raio-X ajuda muito: hiperinsuflação, congestão vascular peri-hilar e líquido nas fissuras interlobares são bem clássicos de taquipneia transitória. Não é o padrão da síndrome do desconforto respiratório, que costuma aparecer em prematuros e mostra pulmões com menor expansibilidade e aspecto reticulogranular. Também não parece pneumonia, porque não há febre, instabilidade clínica ou sinais infecciosos sugerindo sepse neonatal. A conduta é conservadora: monitorização clínica, suporte e oxigenoterapia se necessário. A maioria melhora em 24 a 72 horas, então o manejo é mais de observação vigilante do que de intervenção agressiva. Em prova, pense assim: bebê a termo, cesárea eletiva, desconforto respiratório precoce e RX com líquido residual = taquipneia transitória até prova em contrário. Como regra prática de neonatologia, o quadro costuma ser autolimitado e a decisão é tratar o sintoma respiratório e acompanhar a evolução. A banca gosta de testar justamente se você confunde isso com doença de membrana hialina ou infecção, mas aqui o conjunto clínico e radiológico fecha com o gabarito B.