Uma criança de 7 anos é trazida a uma Clínica da Família com quadro que já se arrastava há 6 meses com febre irregular intercalada com períodos de apirexia, anorexia e perda ponderal de 6 Kg. Mãe relata ainda diarreia ocasional, sangramento gengival frequente, e um episódio de pneumonia tratado com antibióticos há 1 mês, pouco antes da mudança do interior do Estado do Ceará para Fortaleza (CE). Relata banho de rios, conhece o caramujo, conhece o barbeiro, ajuda a família na criação de porcos e cabras, e mora em casa de pau-a-pique, perto de área remanescente de floresta, servida por água de poço. Ao exame: criança emagrecida, hipodesenvolvida para a idade, cabelos finos e quebradiços, hipocorada 2+/4, anictérica, micropoliadenopatia cervical e axilar bilateral, SS 2+/6, pancardíaco, abdome distendido com fígado palpável a 5 cm do RCD e baço a 8 cm do RCE, edema de membros inferiores 1+/4, com cacifo. Tax 37,8 oC; PA: 100/70 mmHg; FC: 104 bpm; FR: 18 irpm. O diagnóstico etiológico do quadro apresentado pela criança mais provavelmente se fará por
- A)esfregaço de aspirado de medula óssea corado pelo Giemsa.
Correta: o aspirado de medula óssea corado pelo Giemsa permite visualizar amastigotas de Leishmania e confirmar leishmaniose visceral.
- B)gota espessa e distensão sanguínea coradas pelo Giemsa.
Errada: gota espessa e distensão sanguínea são exames para malária, não para leishmaniose visceral.
- C)hemoculturas em meios seletivos como o ágar MacConkey.
Errada: MacConkey é meio para isolamento de bactérias entéricas, não para diagnóstico de doença parasitária como a leishmaniose.
- D)exame parasitológico de fezes pela técnica de Kato-Katz.
Errada: Kato-Katz é técnica coproparasitológica, útil para helmintíases como esquistossomose, não para esse quadro sistêmico.
- E)hemocultura em meio enriquecido de Ruiz – Castañeda.
Errada: o meio de Ruiz-Castañeda é usado principalmente para hemocultura em suspeita de brucelose, e não para o diagnóstico aqui.
Gabarito: A
O quadro é bem sugestivo de leishmaniose visceral, também chamada de calazar: febre prolongada e irregular, emagrecimento, anemia, hepatoesplenomegalia, adenomegalia e sangramentos por acometimento da medula. Em criança do interior do Nordeste, com contato com área rural e condições domiciliares precárias, essa hipótese sobe rapidinho para o topo da lista. O verme aqui não aparece em “exame de rotina bonitinho”; você precisa buscar o parasita no local onde ele se instala, principalmente na medula óssea. Por isso, o diagnóstico etiológico mais provável é feito por esfregaço de aspirado de medula óssea corado pelo Giemsa. Nesse material, podem ser visualizadas as formas amastigotas do Leishmania dentro de macrófagos. É um método clássico, muito cobrado em prova, porque confirma a infecção de forma direta. Em muitos serviços, o aspirado de baço é ainda mais sensível, mas tem maior risco de sangramento, então a medula costuma ser a opção prática e segura. As outras alternativas “piscam” doenças infecciosas diferentes. Gota espessa e distensão sanguínea são para malária. Kato-Katz é exame de fezes para helmintos intestinais, especialmente esquistossomose. Hemocultura em MacConkey aponta para enterobactérias, e Ruiz-Castañeda é meio usado para Brucella. Ou seja: o enunciado descreve um calazar clássico, e o Giemsa na medula é o caminho certo.