Um estudo realizado entre trabalhadores que vivenciaram exposições a material biológico na cidade de Araraquara (SP), em 2007, avaliou as características dos acidentes em 149 profissionais de saúde. Exposição percutânea (85%) com sangue (70%) foi o tipo de acidente mais comum, e o momento do descarte do material biológico, a circunstância mais prevalente (23%). Entre os trabalhadores avaliados, 77% referiram imunização com três doses da vacina contra hepatite B, 5% com mais de três doses, 14% com uma ou duas doses, 3% negaram vacinação e 1% não souberam referir. Entre os trabalhadores com três doses da vacina, 71% apresentaram imunidade pós-vacinal e 17% não. Todos os trabalhadores com mais de três doses da vacina desenvolveram imunidade. Encontrou-se 2% de carreadores crônicos do vírus B entre os indivíduos acidentados. Muitos trabalhadores não completaram o seguimento de seis meses pós-acidente. (Brazilian Journal of Infectious Diseases, Vol 5, Supl 1, 2011) A única medida adequada a ser tomada pelos autores do estudo na população de trabalhadores de saúde estudada é
- A)reiniciar esquema de vacinação para hepatite B nos 14% dos trabalhadores que receberam esquemas incompletos com uma ou duas doses da vacina.
Errada, porque esquema incompleto não se resolve apenas com reinício automático nesta formulação da questão, já que a conduta depende do contexto vacinal e sorológico do acidente.
- B)considerar imunizados os 77% dos trabalhadores de saúde do estudo que completaram as três doses preconizadas da vacina contra hepatite B.
Errada, porque 3 doses não significam imunidade obrigatória; é necessário comprovar resposta vacinal com anti-HBs.
- C)determinar o uso de imunoglobulina em futuros acidentes nos 4% dos trabalhadores que negaram ou não souberam referir esquemas de vacinação.
Errada, porque imunoglobulina é medida de profilaxia pós-exposição em situações específicas, não uma regra para todos os vacinados incompletos em futuros acidentes.
- D)aplicar quatro doses, em quantidade dobrada dos imunizantes, nos 2% dos trabalhadores, carreadores crônicos do vírus B, detectados no estudo.
Errada, porque carreadores crônicos não devem ser revacinados com doses dobradas; eles já têm infecção/portador, e a medida é seguimento e orientação, não reforço vacinal.
- E)repetir o mesmo esquema de vacinação para hepatite B nos 17% dos trabalhadores que não apresentaram imunidade após de três doses da vacina.
Certa, porque os trabalhadores que completaram 3 doses mas não apresentaram imunidade devem repetir o esquema vacinal para tentar alcançar soroconversão.
Gabarito: E
Na profilaxia da hepatite B após acidente com material biológico, o raciocínio começa por duas perguntas: a pessoa foi vacinada e ela realmente respondeu à vacina? Ter feito 3 doses não garante imunidade em todo mundo, porque uma parte dos profissionais fica sem resposta sorológica adequada. Por isso, o dado que manda aqui é o anti-HBs: se depois do esquema completo o trabalhador não desenvolveu imunidade, ele deve repetir a vacinação com novo esquema e reavaliar a soroconversão. No enunciado, 17% dos trabalhadores que receberam três doses não apresentaram imunidade pós-vacinal. Isso indica não respondedores, e a conduta é repetir o esquema vacinal para tentar induzir proteção. A lógica é simples: vacina tomada não é igual a vacina que funcionou. Em concurso, a banca adora essa diferença. Já quem tem esquema incompleto, recusa vacinal ou status vacinal duvidoso precisa de conduta conforme o tipo de exposição e a sorologia do paciente-fonte, mas o estudo pergunta a única medida adequada a ser tomada pelos autores na população estudada, olhando para o achado descrito. Assim, o foco recai sobre o grupo que completou o esquema e mesmo assim não imunizou. Em termos práticos, a hepatite B segue a lógica de prevenção pós-exposição e verificação de resposta vacinal, conforme as recomendações do Ministério da Saúde e protocolos de acidentes com material biológico. O detalhe-chave da questão é justamente esse: não basta contar doses, é preciso olhar a resposta imunológica.