Ao realizar uma ultrassonografia obstétrica com 15 semanas, o examinador observa uma gestação gemelar monocoriônica diamniótica com um feto malformado, não sendo identificada atividade cardíaca e tendo fluxo reverso em sua artéria umbilical. O outro feto tem a morfologia sem alterações e fluxos normais em seus vasos ao Doppler. Esse achado é compatível com o seguinte diagnóstico:
- A)síndrome de transfusão feto-fetal estágio IV;
Errada: a síndrome de transfusão feto-fetal estágio IV envolve desequilíbrio entre gêmeos com sinais de insuficiência cardíaca, e não um feto acárdico com fluxo reverso na artéria umbilical.
- B)restrição de crescimento fetal seletiva com óbito de um feto;
Errada: a restrição de crescimento fetal seletiva pode ocorrer em gemelaridade monocoriônica, mas não explica a ausência de atividade cardíaca nem o padrão de perfusão reversa típico da sequência TRAP.
- C)sequência anemia-policitemia da gestação gemelar;
Errada: a sequência anemia-policitemia da gestação gemelar causa discrepância hematológica entre os fetos, geralmente com Doppler de MCA alterado, não um feto sem coração e perfusão reversa.
- D)gemelidade imperfeita;
Errada: gemelidade imperfeita é um termo inespecífico e não descreve a síndrome clássica de um gêmeo acárdico com dependência circulatória do outro.
- E)sequência TRAP.
Certa: a sequência TRAP ocorre em gestação monocoriônica com perfusão arterial reversa de um feto acárdico, exatamente como no enunciado.
Gabarito: E
Em gestação gemelar monocoriônica, o tipo de complicação muitas vezes depende da circulação placentária compartilhada. Quando um dos fetos apresenta malformações graves, ausência de atividade cardíaca e fluxo reverso na artéria umbilical, enquanto o outro segue estruturalmente normal, o raciocínio deve ir para uma situação bem específica: um feto parasita, sem coração funcional, que depende da circulação do seu irmão para sobreviver. Isso é a sequência TRAP, sigla para Twin Reversed Arterial Perfusion. Nessa síndrome, o feto doador bombeia sangue para o feto acárdico por meio de anastomoses placentárias arterioarteriais, com fluxo reverso no sentido da artéria umbilical do feto anormal. O resultado é um feto com desenvolvimento muito defeituoso, frequentemente sem coração e com morfologia bastante alterada, enquanto o outro pode inicialmente estar normal, embora em risco de sobrecarga cardíaca por sustentar a perfusão do parasita. A pista mais importante do enunciado é justamente a combinação de monocorionicidade, feto malformado sem atividade cardíaca e fluxo reverso na artéria umbilical. Isso é praticamente a assinatura da sequência TRAP. Se fosse transfusão feto-fetal, você esperaria sinais clássicos de desequilíbrio hemodinâmico entre doador e receptor, como oligoidrâmnio em um e polidrâmnio no outro, e não um feto acárdico. Então, aqui o gabarito E está correto porque a descrição é típica de feto acárdico em gestação gemelar monocoriônica. Em obstetrícia, algumas síndromes gostam de parecer parentes, mas essa é da família certa e com CPF reconhecível: circulação reversa, ausência de coração e dependência hemodinâmica do gêmeo sadio.