A cognição é um composto de atenção, orientação, memória, linguagem, habilidade visual-espacial e função executiva. Tanto o delirium quanto a demência afetam a cognição, mas de formas muito diferentes. A primeira etapa na avaliação dos pacientes que se apresentam ao pronto-socorro com um distúrbio neurocomportamental consiste em se determinar se esse estado representa delirium ou demência por meio da obtenção de um histórico cuidadoso do paciente (quando possível com o próprio, com membros da família e cuidadores) empregando ferramentas de triagem para confusão mental e avaliações cognitivas para demência. Sobre o quadro de delirium, analise as afirmativas a seguir. I. Cursa com outros distúrbios da cognição, como na memória, desorientação, linguagem, capacidade visual e espacial ou percepção. II. O distúrbio se desenvolve num período de tempo curto, constitui uma alteração relativa à atenção e à consciência basais e ocorre de forma linear em intensidade durante o dia. III. Os distúrbios não são explicados de maneira melhor por outro transtorno neurocognitivo preexistente, estabelecido ou em evolução, e não ocorrem no contexto de um coma. Está correto o que se afirma em:
- A)I, apenas;
A alternativa afirma apenas que o delirium pode cursar com alterações de memória, orientação, linguagem, habilidade visuoespacial e percepção. Isso está de acordo com os critérios do DSM-5, que descrevem, além da alteração de atenção e consciência, outros distúrbios cognitivos associados ao quadro. O problema é que a afirmativa III também corresponde ao conceito diagnóstico de delirium, de modo que reduzir a resposta só à I deixa de fora outra proposição verdadeira.
- B)I e II, apenas;
Aqui se sustenta que o delirium envolve a afirmativa I e também a II. A I está correta porque o delirium pode incluir alterações cognitivas como memória, orientação, linguagem, percepção e função visuoespacial; porém a II erra ao dizer que a intensidade ocorre de forma linear durante o dia, pois o delirium é tipicamente flutuante, com variação ao longo das horas e frequentemente piora noturna. Assim, a presença da II torna essa opção incompatível com o quadro clássico.
- C)I e III, apenas;
A alternativa reúne as afirmativas I e III, que correspondem aos critérios do delirium. A I é verdadeira porque o quadro pode incluir alterações de memória, desorientação, linguagem, percepção e habilidades visuoespaciais; a III também é verdadeira ao excluir melhor explicação por transtorno neurocognitivo prévio ou em evolução e ao afastar o coma, em linha com o DSM-5. Por isso, essa é a combinação correta.
- D)II e III, apenas;
Esta opção combina as afirmativas II e III. A III descreve adequadamente um critério do delirium, ao exigir que o quadro não seja melhor explicado por outro transtorno neurocognitivo e que não ocorra em coma, mas a II incorre em erro ao falar em curso linear durante o dia, quando o delirium é caracteristicamente flutuante. Além disso, a I também é verdadeira, então a alternativa ainda deixa de lado uma assertiva correta.
- E)I, II e III.
A alternativa pressupõe que as três afirmativas estejam corretas. Isso não se sustenta porque a II erra ao caracterizar a evolução diária do delirium como linear, quando a característica típica é a flutuação do nível de atenção e consciência ao longo do dia, com oscilações de intensidade. Já I e III estão corretas, mas a inclusão de uma afirmativa falsa invalida a opção completa.
Gabarito: C
Delirium e demência podem parecer “confusão mental”, mas não são a mesma coisa. No delirium, o quadro costuma surgir em pouco tempo, flutua ao longo do dia e o problema central é a atenção e o nível de consciência. Por isso o paciente pode ficar desorientado, com memória ruim, linguagem prejudicada, alteração visuoespacial e até distorções perceptivas, como alucinações ou ilusões. A ideia-chave aqui é a velocidade e a oscilação. Delirium é agudo, costuma variar durante o dia e não segue um curso linear. Já a demência tem instalação mais lenta, progressiva, com consciência geralmente preservada até fases mais avançadas. Em pronto-socorro, essa distinção é fundamental porque delirium é sempre uma pista de doença aguda, intoxicação, infecção, distúrbio metabólico ou outra agressão orgânica por trás. A afirmativa I está correta porque o delirium afeta vários domínios cognitivos, não só a atenção. A III também está correta porque o delirium não é melhor explicado por um transtorno neurocognitivo preexistente e não ocorre no coma. Já a II erra ao dizer que o quadro ocorre de forma linear durante o dia, porque o delirium tipicamente flutua, piorando e melhorando ao longo das horas. Em termos doutrinários, isso bate com os critérios clássicos do DSM-5-TR para delirium: alteração da atenção e da consciência, início agudo e curso flutuante, além de déficit cognitivo adicional e exclusão de explicações melhores por outro transtorno neurocognitivo. Ou seja, o gabarito C faz sentido porque apenas I e III estão corretas.