Um paciente de 75 anos, com histórico de doenças coronariana, hipertensão arterial e diabetes tipo II é submetido a artroplastia total do quadril esquerdo. No pós-operatório apresenta distensão abdominal progressiva, dor de leve intensidade, difusa e parada de eliminação de gases e fezes. Ao exame, apresenta um abdome distendido, depressível, com ruídos hidroaéreos muito diminuídos. A tomografia do abdome revela dilatação difusa do cólon, principalmente no cólon direito, com maior diâmetro de 8,0 cm. O paciente não apresenta febre e os sinais vitais estão estáveis. Com base nesse caso, a conduta mais adequada é
- A)clister glicerinado associado à lactulona oral.
Errada, porque clister e lactulose podem ajudar em constipação simples, mas não resolvem a pseudo-obstrução aguda do cólon.
- B)colectomia direita com ileostomia e fístula mucosa.
Errada, porque colectomia direita é tratamento de complicação ou necrose, não a conduta inicial em paciente estável sem sinais de perfuração.
- C)administrar neostigmina para promover a motilidade intestinal.
Certa, pois a neostigmina é a droga de escolha na síndrome de Ogilvie por estimular a motilidade colônica.
- D)escopolamina regular, procinético e antibióticos de amplo espectro.
Errada, porque escopolamina piora a motilidade intestinal e antibiótico não trata pseudo-obstrução sem infecção.
- E)descompressão cirúrgica do cólon com transversostomia em dupla boca.
Errada, porque descompressão cirúrgica é medida reservada para falha terapêutica ou complicações, não primeira escolha neste cenário.
Gabarito: C
Este caso é típico da síndrome de Ogilvie, também chamada de pseudo-obstrução aguda do cólon. Ela aparece muito em pacientes idosos, no pós-operatório, especialmente após cirurgia ortopédica, e cursa com distensão abdominal importante, parada de eliminação de gases e fezes, sem sinais de peritonite ou sepse. A imagem costuma mostrar dilatação difusa do cólon, muitas vezes mais acentuada no cólon direito, como no enunciado. O ponto-chave é que não há uma obstrução mecânica verdadeira, então sair operando de cara costuma ser exagero. Como o paciente está estável, afebril, sem sinais de sofrimento intestinal e com diâmetro colônico ainda abaixo do limiar de maior risco, a conduta inicial apropriada é clínica, com descompressão e, principalmente, uso de neostigmina quando não há contraindicação. A neostigmina é um inibidor da acetilcolinesterase que aumenta a atividade parassimpática e estimula a motilidade do cólon. É o tratamento medicamentoso clássico da pseudo-obstrução aguda, com boa resposta, desde que o paciente seja monitorizado por risco de bradicardia. Se houver falha, recidiva ou sinais de complicação, aí sim entram colonoscopia descompressiva e, em casos graves, cirurgia. Por isso, a alternativa C está correta: o quadro é de íleo colônico funcional, não de abdome cirúrgico de urgência. A FGV gosta dessa diferença entre obstrução mecânica e pseudo-obstrução, então vale guardar a regra de ouro: paciente estável, cólon dilatado, sem peritonite e sem causa mecânica - pense em neostigmina primeiro.