Um paciente de 55 anos, com histórico de cirrose hepática avançada devido a hepatite C crônica, é submetido a um transplante hepático. No pós-operatório imediato, o paciente apresenta boa evolução clínica, mas após 10 dias começa a mostrar sinais de febre, aumento de bilirrubinas e dificuldade respiratória. Os exames laboratoriais revelam aumento de transaminases hepáticas, leucocitose e sinais de disfunção renal. A ultrassonografia do fígado mostra um aumento da ecogenicidade do enxerto, sem evidência de trombose na veia porta. A complicação mais provável nesse caso é
- A)colangite bacteriana aguda.
Errada, porque colangite bacteriana isolada não explica tão bem o conjunto de rejeição precoce com alteração de transaminases e piora do enxerto no 10º dia.
- B)trombo embolismo pulmonar.
Errada, pois tromboembolismo pulmonar até pode causar dispneia e febre, mas não justifica o aumento de bilirrubinas e transaminases do enxerto transplantado.
- C)rejeição aguda do enxerto hepático.
Certa, pois o início alguns dias após o transplante com febre, icterícia, elevação de enzimas hepáticas e disfunção do enxerto é compatível com rejeição aguda.
- D)hemorragia intra-abdominal devido a lesão vascular.
Errada, porque hemorragia intra-abdominal costuma aparecer com instabilidade hemodinâmica e queda de hemoglobina, não com esse padrão laboratorial e ultrassonográfico.
- E)insuficiência hepática aguda devido a falência do enxerto.
Errada, porque falência primária do enxerto geralmente ocorre logo nas primeiras 24 a 72 horas, e não após 10 dias com esse perfil inflamatório.
Gabarito: C
No transplante hepático, o período de 1 a 2 semanas após a cirurgia é um momento clássico de vigilância para rejeição aguda. Ela acontece quando o sistema imune do receptor reconhece o enxerto como estranho e passa a agredi-lo, o que pode gerar febre, piora de bilirrubinas, aumento de transaminases e até sinais sistêmicos como leucocitose e disfunção renal. É o tipo de complicação que faz o fígado transplantado "reclamar" de forma bem objetiva nos exames e na clínica. Nesse caso, a combinação de início no 10º dia, febre, colestase com bilirrubina elevada, citólise e alteração do estado geral aponta muito mais para rejeição aguda do enxerto do que para causa mecânica ou infecciosa isolada. A ultrassonografia sem trombose da veia porta ajuda a afastar complicações vasculares importantes, que também podem derrubar o enxerto, mas com outro padrão de apresentação. A rejeição aguda é uma complicação imunológica relativamente comum no pós-transplante, especialmente nas primeiras semanas. O diagnóstico costuma ser suspeitado clinicamente e confirmado por biópsia hepática quando necessário. O tratamento, em geral, envolve ajuste da imunossupressão e, muitas vezes, pulsoterapia com corticosteroide. Portanto, o gabarito C está correto porque o quadro é típico de rejeição aguda do enxerto hepático no pós-operatório precoce, e não de obstrução vascular, hemorragia ou falência primária do enxerto.