Você atende na emergência um menino de 10 anos devido a episódios frequentes de vômitos, fraqueza extrema, e dores abdominais. Segundo a mãe, esses sintomas surgiram há cerca de três meses gerando várias internações para a investigação etiológica sem nenhum diagnóstico até o momento. Ao exame físico o paciente parece saudável e não exibe sinais de desidratação ou qualquer anomalia clínica que justifique a gravidade dos sintomas relatados. Você decide internar o menino para observação e a equipe assistencial percebe que os sintomas desaparecem quando a mãe se ausenta. Nesse caso, a hipótese diagnóstica mais provavelmente a ser considerada é
- A)síndrome de Munchausen por procuração.
Correta: é o quadro típico de sintomas induzidos ou fabricados por cuidador, com melhora da criança quando a mãe se ausenta.
- B)doença de somatização.
Errada: somatização não explica a discrepância entre sintomas e exame nem a relação direta com a presença da mãe.
- C)hipersensibilidade alimentar.
Errada: hipersensibilidade alimentar costuma ter relação com ingestão de alimentos e não com desaparecimento dos sintomas na ausência do cuidador.
- D)distúrbio de conversão.
Errada: conversão é um transtorno funcional do próprio paciente, não um quadro induzido por outra pessoa.
- E)intolerância medicamentosa.
Errada: intolerância medicamentosa exigiria vínculo com uso de fármaco, o que não aparece no enunciado.
Gabarito: A
Aqui o quadro clássico é de um transtorno factício imposto a outra pessoa, mais conhecido como síndrome de Munchausen por procuração. A pista de ouro é quando a criança passa a apresentar sintomas repetidos, com exames e internações sem fechar diagnóstico, mas melhora claramente quando o cuidador suspeito se afasta. Isso acende o alerta de que o sofrimento pode estar sendo produzido ou induzido por alguém próximo, geralmente a mãe ou cuidador principal. Diferente de uma doença orgânica, o paciente pode parecer bem ao exame físico, sem sinais compatíveis com a gravidade narrada. Essa discrepância entre a história dramática e a observação clínica é o que faz a equipe desconfiar. Na prática, o problema não está na criança, mas na situação de abuso e manipulação vivida por ela. Na doutrina médica e na proteção da infância, isso é tratado como forma de violência contra a criança, exigindo investigação cuidadosa e comunicação aos órgãos de proteção quando há suspeita consistente. O foco não é "pegar no pulo" de forma teatral, e sim preservar o paciente e interromper o dano. Por isso, o fato de os sintomas desaparecerem na ausência da mãe praticamente aponta o diagnóstico. As outras alternativas tentam confundir com doenças funcionais ou orgânicas, mas nenhuma explica tão bem essa relação entre presença do cuidador e surgimento dos sintomas. Em prova, sempre que houver criança com quadro inexplicável, idas repetidas ao hospital e melhora quando o acompanhante sai de cena, pense primeiro em Munchausen por procuração.