Paciente do sexo feminino, 49 anos de idade, procura auxílio médico por dor abdominal de forte intensidade, localizada em epigastro e hipocôndrio direito. Sobre o caso, assinale a afirmativa correta.
- A)Na hipótese de pancreatite aguda, a ultrassonografia de abdômen deve ser realizada como modalidade de imagem inicial para avaliar a presença de cálculos e dilatação de vias biliares.
Certa: na suspeita de pancreatite aguda, a ultrassonografia é o exame inicial para investigar etiologia biliar, como cálculos e dilatação de vias biliares.
- B)A elevação de amilase e lipase mais de três vezes o valor de referência é indicativa de pancreatite aguda e quanto mais altos os valores, mais severa é a doença.
Errada: amilase e lipase acima de 3 vezes o normal ajudam no diagnóstico, mas valores mais altos não significam, por si só, doença mais grave.
- C)A tomografia computadorizada de abdômen com contraste deve ser realizada precocemente, nas primeiras 24-48 horas, para avaliar a presença de necrose pancreática.
Errada: a tomografia com contraste não deve ser feita rotineiramente nas primeiras 24-48 horas para necrose, pois essa avaliação costuma ser mais útil depois.
- D)A presença de anemia e de leucocitose são considerados marcadores de severidade da pancreatite aguda.
Errada: anemia e leucocitose não são marcadores clássicos de severidade da pancreatite aguda; a gravidade é avaliada por critérios clínicos e de disfunção orgânica.
- E)A presença de necrose pancreática visualizada por exames de imagem, deve levar ao tratamento com antibióticos e ressecção cirúrgica.
Errada: necrose pancreática não impõe antibiótico e ressecção cirúrgica de rotina; antibióticos são reservados para necrose infectada e a intervenção é seletiva.
Gabarito: A
A dor forte em epigastro e hipocôndrio direito faz pensar em pancreatite aguda, especialmente quando o quadro pode ter origem biliar. Nessa situação, a primeira imagem que costuma ser pedida é a ultrassonografia abdominal, porque ela é ótima para procurar cálculo na vesícula e dilatação das vias biliares, que sugerem pancreatite biliar. É o tipo de exame que olha primeiro para a causa, não para fazer drama de filme com o pâncreas logo de cara. O diagnóstico de pancreatite aguda é feito, em geral, por pelo menos dois de três critérios: dor abdominal típica, elevação de amilase e/ou lipase acima de 3 vezes o valor normal, e achados compatíveis em imagem. A lipase costuma ser mais útil que a amilase, mas o número isolado não define gravidade. Ou seja, enzima alta ajuda a fechar o diagnóstico, mas não funciona como um termômetro confiável da intensidade da doença. A tomografia com contraste não é exame de rotina nas primeiras 24 a 48 horas. Ela fica mais útil depois, principalmente se o caso não estiver claro ou se houver dúvida sobre complicações, como necrose, que costuma ficar mais bem avaliada após alguns dias. Por isso, pedir TC muito cedo para “caçar necrose” geralmente não é a melhor conduta. Quanto à gravidade, anemia e leucocitose não são marcadores clássicos de severidade. Os parâmetros mais usados envolvem sinais clínicos, insuficiência orgânica, SIRS, hemoconcentração, ureia, creatinina e escores como Ranson, BISAP e Atlanta revisada. Necrose pancreática, quando presente, também não indica automaticamente antibiótico ou cirurgia; antibiótico só entra em necrose infectada ou forte suspeita de infecção, e cirurgia ficou bem mais seletiva na era moderna. Em resumo: no cenário da questão, a ultrassonografia inicial para pesquisar cálculo e dilatação de vias biliares é a afirmação correta.