Paciente do sexo feminino, 55 anos, obesa, tabagista, procura atendimento na emergência com quadro de dor abdominal em andar superior de forte intensidade, associada a náuseas e vômitos. Nega uso de bebida alcoólica. Ao exame - lucida, orientada no tempo e no espaço, com fácies de dor, afebril. Ausculta cardíaca e pulmonar sem alterações. Abdômen globoso, sem vísceromegalias, doloroso a palpação profunda em andar superior, sinal de Murphy negativo. Exames laboratoriais – hemácias 4,000milhões/mm3 ; hemoglobina 10,5g/dL; hematócrito 34%; leucócitos 18 mil 6% de bastões; plaquetas 470 mil; glicemia 150mg/dL; amilase 516U/L; lipase 1233U/L; triglicerídeos 550mg/dL; glicemia 188mg/dL. Assinale a opção que apresenta o diagnóstico correto para o quadro relato.
- A)Colecistite aguda.
Errada, porque colecistite aguda costuma dar dor em hipocôndrio direito com sinal de Murphy positivo e não explica bem a lipase tão elevada.
- B)Pancreatite aguda.
Certa, pois a paciente tem dor abdominal típica em andar superior associada a elevação de amilase e lipase, quadro clássico de pancreatite aguda.
- C)Pancreatite crônica.
Errada, porque pancreatite crônica costuma cursar com dor recorrente, perda funcional e, muitas vezes, insuficiência pancreática, não com esse surto agudo enzimático.
- D)Apendicite.
Errada, porque apendicite geralmente começa em dor periumbilical e migra para fossa ilíaca direita, além de não justificar o padrão laboratorial pancreático.
- E)Isquemia mesentérica.
Errada, porque isquemia mesentérica costuma causar dor desproporcional ao exame e, em geral, tem outro contexto clínico, sem esse perfil típico de enzimas pancreáticas.
Gabarito: B
O quadro é bem compatível com pancreatite aguda: dor forte em andar superior do abdome, com náuseas e vômitos, além de aumento importante de amilase e, principalmente, lipase. Em prova, lipase elevada costuma pesar bastante porque é mais específica para pancreatite do que a amilase. Aqui, o exame físico mostra dor à palpação profunda em epigástrio, sem sinal de Murphy, o que afasta um pouco colecistite como principal hipótese. A paciente também tem fatores de risco bem sugestivos, como obesidade e triglicerídeos elevados. Hipertrigliceridemia é causa clássica de pancreatite aguda quando muito alta, e mesmo valores moderadamente aumentados podem aparecer no contexto da crise. Além disso, o fato de negar álcool tira uma causa comum, mas não muda o diagnóstico sindrômico, que continua sendo pancreatite aguda. Na prática, o diagnóstico de pancreatite aguda costuma ser feito com base em 2 de 3 critérios: dor abdominal típica, elevação de amilase ou lipase acima de 3 vezes o limite superior da normalidade, e achados compatíveis em imagem. Nesta questão, já temos dor típica e enzimas elevadas, então não precisa de tomografia para fechar a ideia principal. A banca quer que voce reconheça o conjunto clínico-laboratorial. Por isso, a alternativa B é a correta. O caso não descreve o padrão de uma doença crônica, nem de apendicite, nem de isquemia mesentérica. É o clássico quadro agudo pancreático, com a lipase praticamente gritando o diagnóstico.