Paciente do sexo feminino, 59 anos, com diagnóstico de carcinoma de bexiga metastático, em uso de imunoterapia (immune checkpoint inhibitor), interna com história de diarreia líquida há 13 dias, sem muco ou sangue, odor fétido, associada a dor abdominal, distensão do abdome e febre. À admissão relatava tratamento recente para sinusite bacteriana. A tomografia computadorizada de abdome e pelve revelou pancolite. A esse respeito, assinale a afirmativa correta.
- A)Trata-se de paciente em tratamento oncológico com quadro de diarreia aguda e a etiologia mais provável é retocolite ulcerativa inespecífica.
Errada, porque retocolite ulcerativa não é a etiologia mais provável neste contexto agudo de imunoterapia e antibiótico recente.
- B)Trata-se de paciente em tratamento oncológico com quadro de diarreia persistente e a etiologia infecciosa é a mais provável.
Errada, porque a etiologia infecciosa é importante, mas não é a única hipótese mais provável, já que a imunoterapia também pode causar colite.
- C)Trata-se de paciente em tratamento oncológico com diarreia aguda secundária ao tratamento imunoterápico.
Errada, porque diarreia aguda por imunoterapia é possível, mas o caso tem forte suspeita concomitante de C. difficile pelo antibiótico recente.
- D)Trata-se de paciente em tratamento oncológico com quadro de diarreia persistente e a causa mais provável é a infecção pelo C. difficile.
Errada, porque o quadro não aponta apenas para C. difficile; a colite imunomediada por checkpoint inhibitor também é uma hipótese muito forte.
- E)Trata-se de paciente em tratamento oncológico com quadro de diarreia aguda e as causas mais prováveis são a infecção pelo C. difficile e efeito adverso da imunoterapia.
Certa, porque em paciente oncológica com imunoterapia e antibiótico recente, as principais causas de diarreia aguda são C. difficile e colite por efeito adverso da imunoterapia.
Gabarito: E
Em paciente oncológico em uso de imunoterapia, diarreia aguda não deve ser tratada como “diarreia qualquer”. Os immune checkpoint inhibitors podem causar colite imunomediada, com dor abdominal, febre, diarreia e até pancolite na imagem. Ou seja: o remédio que ajuda o sistema imune a atacar o tumor também pode fazer o intestino entrar na briga. Mas a história não para aí. Este caso ainda traz um fator clássico de infecção: antibiótico recente para sinusite bacteriana. Isso aumenta muito a suspeita de infecção por Clostridioides difficile, uma causa típica de diarreia associada a antibióticos, frequentemente com odor fétido, dor abdominal, febre e colite importante, inclusive pancolite. Por isso, em uma paciente com câncer, imunoterapia e antibiótico recente, as duas causas mais prováveis entram no topo da lista: colite por imunoterapia e C. difficile. A tomografia com pancolite reforça o quadro de colite, mas não separa sozinha a origem infecciosa da imunomediada. Na prática, a investigação costuma incluir pesquisa para toxina/PCR de C. difficile e avaliação de colite imunomediada, porque o manejo muda bastante. Assim, o item correto é o que reconhece diarreia aguda e aponta como principais hipóteses tanto a infecção por C. difficile quanto o efeito adverso da imunoterapia. É a clássica questão que mistura oncologia com gastro e pede que você pense em mais de um culpado no mesmo cenário.