Paciente de 27 anos foi submetido ambulatorialmente a exérese de volumoso lipoma de 7cm no seu maior diâmetro, localizado na região supraclavicular esquerda. Encontrava-se um pouco ansioso mas, cooperativo. Inicialmente foi feito bloqueio loco regional com 20mL de Lidocaína 20% sem vasoconstritor. A dissecção foi realizada com bisturi elétrico. Ao atingir os planos inferiores da tumoração houve necessidade de repicar a anestesia com mais 20mL do mesmo anestésico. Pouco tempo após o paciente começou a apresentar dormência da língua e dificuldade de falar. Diante desse quadro, assinale a opção que indica o diagnóstico provável e a respectiva conduta.
- A)Distonia neuro vegetativa / benzodiazepínico.
Errada: distonia neurovegetativa não explica a dormência de língua e a disartria logo após a infiltração de lidocaína.
- B)Bloqueio do tronco tiro línguo facial / aguardar o término espontâneo.
Errada: bloqueio do tronco tiro-línguo facial não é o diagnóstico esperado e não justifica esse padrão de toxicidade sistêmica.
- C)Bloqueio do ramo aferente do nervo hipoglosso / aguardar o término espontâneo.
Errada: lesão ou bloqueio do hipoglosso pode causar alteração da fala, mas não explica o conjunto de sinais após alta dose de anestésico local.
- D)Efeito tóxico cardiovascular da lidocaína / infusão venosa contínua de betabloqueador.
Errada: a toxicidade cardiovascular pode ocorrer, mas aqui os primeiros sintomas são neurológicos, e a conduta proposta não é a adequada.
- E)Efeito tóxico neurológico da lidocaína / oxigenação a 100% sob máscara e decúbito dorsal com leve Trendelenburg.
Certa: trata-se de toxicidade neurológica sistêmica da lidocaína, com conduta inicial de suporte ventilatório e oxigenação a 100%.
Gabarito: E
Aqui o quadro é clássico de toxicidade sistêmica da lidocaína por anestésico local, e o primeiro sinal costuma ser neurológico, não cardíaco. A sequência típica inclui dormência perioral ou da língua, gosto metálico, zumbido, visão turva, tontura e dificuldade de falar, podendo evoluir para convulsões e arritmias se a exposição continuar. No caso, o paciente recebeu uma dose alta de lidocaína e, pouco tempo depois, passou a ter dormência da língua e disartria. Isso aponta para efeito tóxico neurológico da lidocaína, também chamado de LAST (local anesthetic systemic toxicity). O mecanismo é a absorção sistêmica do anestésico, favorecida por dose excessiva, infiltração em área vascularizada ou repetição da dose em curto intervalo. A conduta imediata é suspender o anestésico, garantir via aérea, oferecer oxigenação a 100% e manter suporte ventilatório e hemodinâmico. A posição em decúbito dorsal com discreto Trendelenburg ajuda no suporte inicial em contexto de pronto atendimento, enquanto se monitora o paciente. Em casos graves, o tratamento moderno inclui emulsão lipídica intravenosa, além de controle de convulsões com benzodiazepínico. Por isso, o gabarito é a alternativa E: o quadro é neurológico, precoce, e a resposta inicial correta é suporte com oxigênio. Não é distonia, não é bloqueio de nervos locais da região, e muito menos toxicidade cardiovascular isolada.