Paciente na 20ª semana de gestação gemelar monocoriónica diamniótica é encaminhada ao serviço de Medicina Fetal pelo obstetra, por ter observado aumento importante do fundo uterino. Na avaliação ultrassonográfica foi observada polidramnia no feto 1 e adramnia no feto 2. A morfologia dos fetos foi normal, com exceção da não visualização da bexiga no feto 2. O Doppler das artérias cerebral média e umbilical estava normal em ambos os fetos. Para esse caso, assinale a afirmativa correta.
- A)O diagnóstico é síndrome de transfusão feto-fetal na variante sequência anemia/policitemia.
Errada: a sequência anemia-policitemia (TAPS) costuma ter Doppler da cerebral média alterado, sem o padrão clássico de polidramnia/oligodramnia da STFF.
- B)O tratamento é a oclusão do cordão umbilical do feto 2 por diatermia monopolar.
Errada: oclusão do cordão é medida extrema para casos de sofrimento fetal muito específico, não é o tratamento de escolha dessa apresentação de STFF.
- C)Deverá ser submetida a “dicorionização” da placenta pela técnica de Solomon.
Certa: o tratamento da STFF em gestação monocoriônica é a fetoscopia com laser das anastomoses placentárias, e a técnica de Solomon é uma forma consagrada de realizar essa ablação.
- D)A conduta é conservadora, apenas com monitoramento semanal por Doppler.
Errada: a conduta conservadora só cabe em situações muito selecionadas e leves; com polidramnia e adramnia na 20ª semana, a vigilância isolada é insuficiente.
- E)Indicar cirurgia fetal quando a onda “A” estiver negativa no Doppler do ducto venoso.
Errada: onda A negativa no ducto venoso é sinal de gravidade hemodinâmica, mas não é o critério para indicar cirurgia fetal como primeira linha nessa síndrome.
Gabarito: C
Em gestação gemelar monocoriônica, o combo polidramnia em um feto e adramnia no outro faz você pensar em síndrome de transfusão feto-fetal (STFF) até que se prove o contrário. Aqui, a ausência da bexiga no feto 2 sugere que ele é o doador e já está com pouca perfusão urinária, o que costuma corresponder ao estágio II de Quintero, mesmo com Dopplers ainda normais. Nessa situação, a conduta de escolha não é esperar a “evolução do filme”. O tratamento eficaz é a fetoscopia com laser para coagular as anastomoses placentárias, separando as circulações fetais. Em linguagem de prova, isso é a famosa “dicorionização” funcional da placenta: você transforma uma placenta compartilhada em duas circulações independentes, reduzindo a chance de morte e sequelas neurológicas. A técnica de Solomon é uma modificação do laser em que se completa a ablação ao longo da linha equatorial da placenta, como um “acabamento” para fechar anastomoses residuais. Ela é usada justamente para diminuir recorrência de STFF e reduzir complicações como a sequência anemia-policitemia, então a alternativa C está alinhada com a melhor conduta. Resumindo a lógica da questão: monocoriônica + bolsa gordinha em um gêmeo e seca no outro + bexiga ausente = STFF tratável com laser fetoscópico. Quando a banca fala em Solomon, ela está apontando para a técnica correta de ablação placentária, e não para conduta expectante nem para intervenções destrutivas como oclusão do cordão.