Paciente de 95 anos, sexo feminino, portadora de Mal de Alzheimer avançado, dá entrada no Pronto-Socorro em insuficiência respiratória após episódio de bronco-aspiração importante da dieta. No ano, é a quinta admissão dessa paciente pelo mesmo motivo, sendo que a última motivou internação em UTI. Levando em conta os princípios do Código de Ética Médica e a melhor prática de cuidado para pacientes com doenças definidoras de terminalidade, assinale a afirmativa correta.
- A)Deve ser perguntado ativamente aos familiares dessa paciente se eles desejam ou não que a paciente seja intubada em caso de evolução desfavorável.
Errada, porque a decisão sobre intubação não deve ser jogada de forma ativa e automática para a família como se a conduta padrão fosse prolongar o suporte invasivo, sem antes discutir prognóstico e proporcionalidade.
- B)Pelo fato de se tratar de intercorrência aguda, potencialmente reversível, tal paciente deve ser candidata a todas as medidas invasivas possíveis.
Errada, porque o fato de o evento ser agudo e teoricamente reversível não obriga a usar todas as medidas invasivas possíveis, já que em terminalidade a proporcionalidade e o benefício esperado continuam mandando no jogo.
- C)Deve-se convocar a família imediatamente para realização de conferência familiar e discussão de terminalidade – em paralelo, há indicação de realização de medicações para alívio sintomático da paciente.
Certa, pois a conduta adequada é chamar a família para discutir terminalidade e, ao mesmo tempo, iniciar medidas de conforto e controle de sintomas.
- D)Pelo fato de estar em insuficiência respiratória, com alto risco de intubação orotraqueal, tal paciente é considerada prioridade 1 para admissão em unidade de terapia intensiva (UTI).
Errada, porque insuficiência respiratória isolada não transforma automaticamente a paciente em prioridade de UTI; a indicação deve considerar prognóstico global, benefícios e objetivos terapêuticos.
- E)A realização de sedação paliativa com midazolam está imediatamente indicada nesse contexto.
Errada, porque sedação paliativa não é medida "imediatamente indicada" de forma automática, já que ela depende de sintomas refratários e de avaliação clínica cuidadosa.
Gabarito: C
Aqui a chave é lembrar que ética médica não obriga você a "fazer tudo" em qualquer situação. Em pacientes com doença avançada e quadro de terminalidade, o foco muda: sai a lógica de prolongar vida a qualquer custo e entra a boa prática de cuidado proporcional, com alívio de sofrimento, comunicação clara com a família e decisões compartilhadas. Isso conversa com o Código de Ética Médica, que veda obstinação terapêutica e orienta a não submeter o paciente a procedimentos desnecessários ou desproporcionais, especialmente quando não trazem benefício real. Na paciente do enunciado, há um quadro de Alzheimer avançado, repetidas internações por broncoaspiração e piora respiratória recorrente. Isso é bem sugestivo de fase final da doença, em que a pergunta central não é "dá para intubar?", mas "isso vai trazer benefício proporcional e alinhado aos objetivos de cuidado?". Em geral, nesses casos, a melhor conduta é chamar a família para uma conferência, explicar prognóstico e discutir terminalidade, limites de suporte e plano de cuidados. Ao mesmo tempo, o sofrimento não pode esperar a reunião virar ata. Por isso, medidas de conforto e controle de sintomas devem ser iniciadas em paralelo, como manejo da dispneia, ansiedade e desconforto, sempre com proporcionalidade. A ideia é tratar a pessoa, não só a radiografia do plantão. O gabarito C está correto porque une duas coisas que andam juntas na boa prática: comunicação com a família sobre terminalidade e alívio sintomático imediato. É a conduta ética e humanizada para um cenário de doença irreversível e recorrência de eventos graves, evitando tanto o abandono quanto a distanásia.