Você está na enfermaria de um hospital e ao passar visita se depara com uma criança com o seguinte caso: lactente com história de cansaço há 4 dias, tosse, sem febre, em ausculta pulmonar murmúrio vesicular com leve diminuição em base esquerda, internado para investigação, relatada que internações são recorrentes sempre com casos semelhantes nos últimos 3 meses. Mãe relata que sempre fazem o mesmo tratamento, uso de antibioticoterapia, utilização de corticoide oral e uso de salbutamol por um período de 5 dias. Radiografia de internação apresentando opacidade em lobo inferior esquerdo com adenomegalia peri-hilar esquerda. Pensando no quadro você verifica exames de internações anteriores e nota que a mesma imagem esteve presente em rediografia prévias. Para o caso descrito, assinale a opção que indica o exame a ser solicitado para identificação do agente etiológico mais provável.
- A)Sorologia para Aspergillus fumigatus.
Errada, porque Aspergillus fumigatus não é a hipótese mais provável em lactente imunocompetente com imagem persistente e adenomegalia hilar.
- B)Teste rápido Sars Cov-2.
Errada, porque teste rápido para SARS-CoV-2 não explica um quadro recorrente de meses com a mesma opacidade e linfonodomegalia hilar.
- C)Pesquisa de Mycobacterium tuberculosis em lavado gástrico.
Certa, porque a pesquisa de Mycobacterium tuberculosis em lavado gástrico é o exame indicado na suspeita de tuberculose pulmonar na criança pequena.
- D)Sorologia para Histoplasma capsulatum.
Errada, porque histoplasmose até pode causar adenopatia e infiltrado, mas não é a principal hipótese diante desse padrão clínico-radiológico em lactente.
- E)Sorologia para Cryptococcus neoformans.
Errada, porque Cryptococcus neoformans é causa incomum nesse contexto e não é a primeira suspeita para essa apresentação radiológica persistente.
Gabarito: C
Quando uma criança tem episódios respiratórios repetidos e a radiografia mostra sempre a mesma alteração, você precisa pensar menos em “bronquite que insiste em voltar” e mais em uma lesão persistente ou em doença infecciosa de curso arrastado. No caso, a combinação de opacidade em lobo inferior esquerdo com adenomegalia perihilar e a repetição da mesma imagem em exames prévios aponta fortemente para tuberculose pulmonar na infância, especialmente a forma primária com linfonodomegalia hilar/mediastinal. Em lactentes, a tuberculose muitas vezes não se apresenta como o adulto clássico com tosse produtiva e febre alta. Pode aparecer com sintomas pouco específicos, como cansaço, tosse e achados radiológicos persistentes. O detalhe importante é a repetição do mesmo infiltrado, sugerindo que não se trata de infecções “novas” sucessivas, mas de um foco que não resolve. A adenomegalia hilar é uma pista bem valiosa para TB primária. Por isso, o exame mais útil para tentar identificar o agente etiológico é a pesquisa de Mycobacterium tuberculosis em lavado gástrico. Em crianças pequenas, elas engolem secreções respiratórias durante a noite, e o lavado gástrico matinal aumenta a chance de recuperar o bacilo. Esse é um raciocínio clássico de pediatria e pneumologia: criança pequena, suspeita de TB, e coleta por via gástrica em vez de esperar escarro, que geralmente não vem. As demais alternativas fogem do quadro. Fungo oportunista, virose respiratória aguda e micoses sistêmicas não explicam tão bem essa imagem recorrente com adenopatia hilar em lactente. Aqui, o foco é reconhecer o padrão radiológico e clínico que grita tuberculose antes de correr para hipóteses mais exóticas.