Em pacientes com choque hemorrágico traumático, algumas medidas são tomadas para reduzir a morbidade e a mortalidade do paciente. Algumas práticas realizadas no atendimento podem ser causa primária do aumento do processo inflamatório sistêmico e do sangramento, assim como a síndrome compartimental abdominal. Diante destas observações, assinale a opção que apresenta um componente utilizado no controle de dano.
- A)Infusão inicial de 2 litros de soro fisiológico a 0,9% intravenoso.
Errada: infusão inicial agressiva de soro fisiológico pode piorar a coagulopatia, diluir fatores e aumentar sangramento, contrariando o controle de dano.
- B)Manutenção da hipotensão até o controle cirúrgico definitivo.
Certa: a hipotensão permissiva até o controle cirúrgico da hemorragia é um componente clássico do controle de dano no trauma.
- C)Uso de ácido tranexâmico intravenoso até 12 horas após o trauma.
Errada: o ácido tranexâmico tem benefício sobretudo quando administrado precocemente após o trauma, e não como medida central de controle de dano até 12 horas.
- D)Infusão de 2 litros de ringer com lactato intravenoso até a regularização da pressão arterial.
Errada: grandes volumes de Ringer com lactato para normalizar a pressão podem agravar sangramento e não fazem parte da estratégia de ressuscitação restritiva.
- E)Administração de sangue total intravenoso caso o hematócrito esteja abaixo de 20%.
Errada: transfusão não deve ser guiada apenas por hematócrito isolado, e sangue total não é a resposta clássica descrita nesse contexto.
Gabarito: B
No choque hemorrágico traumático, o foco inicial não é “normalizar” a pressão a qualquer custo, porque isso pode desmontar o coágulo que ainda está se formando e aumentar o sangramento. A lógica do controle de dano é ganhar tempo até o controle definitivo da hemorragia, com ressuscitação mais contida, hemostasia rápida e prevenção da tríade letal: hipotermia, acidose e coagulopatia. Dentro dessa estratégia, uma medida clássica é a hipotensão permissiva, isto é, manter a pressão em um nível suficiente para perfundir órgãos vitais, mas sem subir demais antes do controle cirúrgico definitivo. Em outras palavras: não é para “encher o tanque” com pressa, porque isso pode piorar a perda sanguínea e favorecer a síndrome compartimental abdominal. Por isso o gabarito é a letra B. Ela traduz exatamente um componente do controle de dano no trauma hemorrágico: manter a hipotensão até o controle do sangramento. Esse raciocínio é coerente com a doutrina de ressuscitação hemostática e com o manejo recomendado em trauma, como nas diretrizes do ATLS e do European Trauma Guideline, que privilegiam controle da fonte de sangramento e ressuscitação balanceada, em vez de volume agressivo precoce. As demais alternativas descrevem condutas que, em geral, fogem dessa filosofia: grande volume de cristalóide cedo demais, uso de hemoderivados sem indicação adequada ou tempo de uso do ácido tranexâmico fora da janela mais útil. Aqui, a prova quer que você reconheça o princípio, não a “sede de soro” do atendimento clássico.