Paciente de 15 anos, masculino, sem comorbidades, admitido no pronto socorro após picada de animal desconhecido no pé direito há cerca de 4 horas, enquanto calçava sapatos. Refere dor local intensa e sensação de dormência, 2 episódios de vômitos, sudorese profusa e febre aferida em domicílio de 38º. Ao exame físico, em mal estado geral, febril, sonolento, hipocorado 2+/4, com frequência cardíaca de 45 batimentos por minuto, pressão arterial de 60x30 mmHg, dispneico, com frequência respiratória de 30 incursões respiratórias por minuto, ausculta pulmonar com estertores bilaterais difusos. O caso é sugestivo do seguinte tipo de acidente com animal peçonhento:
- A)acidente botrópico.
Errada: o acidente botrópico costuma causar dor, edema e alterações locais mais marcantes, podendo evoluir com sangramentos e necrose, não esse predomínio de sintomas autonômicos.
- B)acidente escorpiônico.
Certa: o quadro com dor intensa, vômitos, sudorese, bradicardia, hipotensão e dispneia é típico de escorpionismo grave.
- C)acidente por himenóptero.
Errada: himenópteros (abelhas, vespas, formigas) tendem a causar reação alérgica, anafilaxia ou múltiplas ferroadas, e não esse padrão clássico de picada no sapato com síndrome autonômica.
- D)acidente laquético.
Errada: o acidente laquético é semelhante ao botrópico, mas costuma ter efeito local importante e manifestações hemorrágicas, não sendo a melhor hipótese para esse caso.
- E)acidente lepidóptero.
Errada: lepidópteros geralmente causam dermatite por contato com lagartas, com lesão cutânea e irritação local, sem o quadro sistêmico grave descrito.
Gabarito: B
O quadro descreve um acidente por escorpião: picada após calçar o sapato, dor local intensa, dormência, vômitos, sudorese, febre, sonolência e sinais de gravidade como bradicardia, hipotensão, dispneia e estertores. Em crianças e adolescentes, o envenenamento escorpiônico pode evoluir rápido e causar importante descarga autonômica e comprometimento cardiorrespiratório. É o tipo de caso que faz o pronto-socorro ligar o alerta vermelho sem nem pedir licença. A fisiopatologia é basicamente uma tempestade neurotóxica: o veneno estimula terminações nervosas e provoca liberação de mediadores, com dor intensa no local e sintomas sistêmicos como sudorese, vômitos, agitação, sialorreia, taquicardia ou, nos casos graves, instabilidade hemodinâmica e insuficiência respiratória. Em quadros moderados a graves, a assistência deve ser imediata, com suporte clínico e, conforme protocolo, soro antiescorpiônico e monitorização. A chave da questão é o conjunto: acidente em ambiente doméstico, dentro do sapato, com dor local muito forte e manifestações autonômicas sistêmicas. Isso é bem mais típico de escorpionismo do que de peçonhento com necrose local ou sangramento. Em prova, quando aparecer vômito + sudorese + alteração cardiovascular após picada em calçado, pense primeiro em escorpião. Portanto, o gabarito é a alternativa B, porque o quadro clínico é clássico de acidente escorpiônico, inclusive com sinais de gravidade cardiovascular e respiratória. Em medicina de urgência, o diagnóstico é clínico e o tempo conta muito.