Paciente de 64 anos vinha em tratamento de primeira linha para câncer gastrointestinal, tendo realizado o último ciclo de quimioterapia três dias antes de sua admissão na emergência, onde chega queixando-se de diarreia profusa com cerca de cinco episódios diários, associados a mal-estar generalizado, dor abdominal, náuseas e vômitos. Ao exame: desidratada++/4+, eupneica, lúcida. PA 110 X 60mmHg, FC 88 bpm, SatO2 98%. À palpação: abdome distendido e difusamente doloroso, sem sinais de irritação peritoneal. Quanto ao caso em questão, é correto afirmar que:
- A)há alto risco de neutropenia febril, portanto, a paciente deve ser internada prontamente e filgrastim deve ser iniciado de forma precoce, não sendo necessário aguardar resultado do hemograma;
Errada, porque neutropenia febril exige febre e confirmação/forte suspeita de neutropenia, o que não pode ser afirmado sem hemograma.
- B)hemoculturas deverão ser prontamente coletadas, seguidas de início de antibiótico na primeira hora, já que se trata de quadro séptico em paciente imunossuprimido;
Errada, porque não há quadro séptico descrito e antibiótico na primeira hora é conduta para sepse suspeita, não para toda diarreia em imunossuprimido.
- C)toxicidade gastrointestinal à quimioterapia seria a principal hipótese, e a paciente deve ser abordada inicialmente com reposição volêmica e sintomáticos;
Certa, pois o quadro sugere toxicidade gastrointestinal por quimioterapia e a abordagem inicial é suporte com hidratação e tratamento sintomático.
- D)colite pseudomembranosa seria a principal hipótese, e a paciente poderia ser tratada com vancomicina oral ambulatorialmente;
Errada, porque colite pseudomembranosa não é a hipótese principal com os dados dados, e vancomicina oral ambulatorial não é a conduta automática aqui.
- E)os efeitos colaterais apresentados pela paciente sugerem reação grave à quimioterapia, justificando a troca do agente quimioterápico no próximo ciclo de tratamento.
Errada, porque efeitos adversos não justificam sozinho troca do quimioterápico sem antes definir a causa e estabilizar a paciente.
Gabarito: C
Em paciente oncológico em quimioterapia recente, diarreia, náuseas, vômitos, dor abdominal e desidratação fazem pensar primeiro em toxicidade gastrointestinal da própria quimioterapia, especialmente quando não há febre, instabilidade hemodinâmica ou sinais claros de sepse. O raciocínio inicial é clínico e de suporte: hidratação, correção de eletrólitos, controle de sintomas e avaliação de gravidade. Em Gastroenterologia, a quimioterapia pode irritar a mucosa intestinal e acelerar o trânsito, gerando um quadro bem parecido com uma gastroenterite, mas o contexto oncológico muda a prioridade da investigação. A alternativa C está correta porque descreve exatamente a conduta inicial mais adequada para um quadro de provável toxicidade gastrointestinal: reposição volêmica e sintomáticos. Antes de sair tratando como infecção grave, você precisa olhar o conjunto da cena: a paciente está lúcida, com pressão preservada, saturação boa e sem peritonite. Isso pesa contra um abdome agudo infeccioso ou séptico naquele momento. Já neutropenia febril não pode ser presumida sem hemograma e, além disso, aqui nem existe febre no enunciado. A febre é peça central desse diagnóstico e costuma exigir avaliação e antibiótico precoce quando presente. Sem esse dado, não dá para “pular” diretamente para filgrastim ou antibiótico como se o caso já estivesse fechado. Também vale lembrar que colite pseudomembranosa é uma hipótese em pacientes com diarreia, especialmente após antibióticos, mas o caso não traz esse gatilho e o quadro não parece grave o suficiente para manejo ambulatorial com vancomicina oral. Em prova, a banca gosta de testar justamente isso: o paciente oncológico nem sempre está séptico - às vezes está só muito mal de intestino mesmo.