AMN, sexo feminino, 50 anos, dá entrada no pronto-socorro com quadro de diarreia há três dias, com fezes de consistência líquida, odor fétido, sem muco ou sangue, cerca de 7x/dia, associada a dor abdominal tipo cólica, náuseas e vômitos. Dos antecedentes de importância relatava diabetes tipo 2 e uso recente de Cipro para infecção do trato urinário. A tomografia de abdome e pelve revelou colite infecciosa. Em relação ao caso apresentado, avalie se as afirmativas a seguir são verdadeiras (V) ou falsas (F).
- A)A causa mais provável é a infecção pelo Clostridium difficile e o antibiótico de escolha é a Ceftriaxona.
Errada, porque a causa provável é C. difficile, mas ceftriaxona não é tratamento e ainda pode favorecer a disbiose intestinal.
- B)Trata-se de paciente com provável colite aguda secundária à infecção pelo Clostridium difficile e o tratamento se baseia na hidratação e sintomáticos.
Errada, porque hidratação e sintomáticos isoladamente não bastam quando há forte suspeita de colite por C. difficile.
- C)Trata-se de paciente com provável colite secundária ao rotavírus e não necessita de antibioticoterapia.
Errada, porque o quadro é típico de colite associada a antibiótico por C. difficile, não de rotavírus.
- D)Trata-se de paciente com provável colite secundária ao Clostridium difficile e o antibiótico de escolha é a vancomicina oral.
Certa, porque a apresentação clínica e o uso recente de antibiótico sugerem C. difficile, cujo tratamento inclui vancomicina oral.
- E)Trata-se de paciente com provável colite secundária ao rotavírus e o antibiótico de escolha é a Ceftriaxona.
Errada, porque rotavírus não é a hipótese mais provável aqui e ceftriaxona não é tratamento para esse tipo de colite.
Gabarito: D
O quadro é bem sugestivo de colite por Clostridioides difficile: diarreia aquosa, fétida, dor abdominal, náuseas e vômitos, aparecendo após uso recente de antibiótico, no caso uma quinolona. Esse é o clássico cenário em que a microbiota intestinal é desorganizada e a bactéria aproveita a chance para causar colite infecciosa, muitas vezes com lesão de mucosa e até colite pseudomembranosa. Na prática, quando a suspeita é forte, o tratamento não é só “dar soro e esperar passar”. A hidratação ajuda, claro, mas o ponto central é tratar a infecção com antibiótico específico. Em casos não graves ou graves sem complicações, a vancomicina por via oral é uma escolha consagrada, assim como a fidaxomicina em alguns protocolos. Se houver suspeita de C. difficile, não se escolhe ceftriaxona, porque ela pode inclusive piorar o desequilíbrio da flora intestinal. O detalhe que entrega a questão é justamente o antecedente de uso recente de antibiótico e a apresentação de colite infecciosa sem sangue ou muco, bem compatível com C. difficile. Rotavírus costuma ser mais lembrado em gastroenterite viral, sobretudo em crianças, e não é o padrão clássico dessa história em adulto após antibiótico. Então, a alternativa D está correta porque reconhece a colite por C. difficile e indica a vancomicina oral como tratamento de escolha. Esse é o raciocínio que a banca quer: identificar o gatilho, pensar no agente mais provável e escolher a terapia alvo certa, sem cair na tentação de tratar como uma diarreia viral comum.