Paciente feminina, 37 anos, testemunha de Jeová, hipertensa, diabética, com antecedente de miomatose uterina e sangramento vaginal recorrente, procura o pronto-socorro por quadro de astenia em piora nos últimos dias e palidez cutânea. Ao exame físico, em regular estado geral, vigil, lúcida, orientada em tempo e espaço, hipocorada +++/4+, hidratada, ausculta cardíaca e pulmonar sem alterações, FC 87 bpm, FR 16 irpm, PA 120x75 mmHg. Exames laboratoriais evidenciando Hb 6.7, Ht 20.8, leucócitos 7500, plaquetas 550.000, Ur 37, Cr 0.7, Na 137, K 4.1. Assinale a opção que apresenta a conduta mais adequada.
- A)Como houve resultado de Hb < 7 e a paciente apresenta sintomas decorrentes da anemia, é mandatária transfusão de pelo menos 1 concentrado de hemácias, ainda que isso resulte em conflitos com a paciente ou com familiares.
Errada: hemoglobina baixa e sintomas não tornam a transfusão automaticamente obrigatória quando a paciente está lúcida, estável e recusa o procedimento por convicção religiosa.
- B)Se a paciente concordar em receber hemocomponentes, essa decisão deve ser imediatamente comunicada pela equipe médica a seus familiares, bem como registrada em prontuário médico, visando evitar conflitos futuros com os mesmos.
Errada: a decisão terapêutica pertence à paciente capaz e não deve ser comunicada à família sem consentimento, pois isso viola sigilo e autonomia.
- C)Deve ser acionado imediatamente o setor jurídico do hospital, tendo em vista potenciais conflitos que podem vir a ocorrer entre a paciente, seus familiares e a equipe médica, desencadeados pela possível não aceitação de transfusões sanguíneas.
Errada: não há motivo para acionar o jurídico de imediato apenas por possível recusa transfusional; primeiro deve-se respeitar a decisão informada da paciente e conduzir a assistência clínica.
- D)Como a paciente apresenta não apresenta instabilidade clínica, a conduta mais adequada é proceder imediatamente com alta hospitalar e orientá-la a procurar um médico hematologista especializado no atendimento de pacientes que são testemunhas de Jeová, uma vez que só ele teria capacitação para atendê-la de maneira adequada.
Errada: a paciente não deve receber alta só por estar estável, porque ainda precisa de abordagem do quadro anêmico e do sangramento, com plano terapêutico adequado e individualizado.
- E)Como a paciente não apresenta instabilidade clínica decorrente da anemia, deve-se respeitar sua autonomia, caso ela não deseje receber transfusões sanguíneas, bem como devem ser apresentadas demais opções terapêuticas para o diagnóstico em questão, a fim de que se logre um tratamento que não contrarie as crenças religiosas da paciente.
Certa: paciente competente, sem instabilidade, tem direito de recusar transfusão, e a equipe deve respeitar sua autonomia e oferecer alternativas terapêuticas compatíveis com suas crenças.
Gabarito: E
A questão mistura anemia importante com um ponto clássico de bioética e direito médico: a paciente é adulta, lúcida, orientada e, por ser testemunha de Jeová, pode recusar transfusão de sangue. Em medicina, não basta olhar só o número da hemoglobina; você precisa avaliar instabilidade hemodinâmica, gravidade clínica e, principalmente, a vontade da paciente quando ela tem capacidade decisória. Aqui, apesar da Hb de 6,7 g/dL e da palidez, ela não está em choque, não tem sinais de instabilidade e está consciente para decidir. Isso faz toda a diferença. O princípio da autonomia exige respeitar a recusa informada de tratamento, inclusive transfusão, quando a paciente é capaz. No Brasil, o direito de aceitar ou recusar procedimento é protegido pela Constituição, pelo Código de Ética Médica e pela lógica do consentimento informado. Então, a conduta correta é conversar, esclarecer riscos e benefícios, registrar adequadamente a decisão e oferecer alternativas compatíveis com a crença da paciente. Em anemia por sangramento uterino, isso pode incluir ferro oral ou intravenoso, controle do sangramento, tratamento hormonal e, se necessário, outras estratégias de conservação sanguínea. O objetivo é tratar sem atropelar a religião e sem transformar o pronto-socorro em arena de família e equipe em disputa. A banca quer ver se você cai na armadilha do “Hb baixa = transfusão obrigatória”. Não é assim. Em paciente estável e competente, a transfusão não pode ser imposta contra a vontade, e a assistência deve ser individualizada, respeitando autonomia e oferecendo opções terapêuticas não transfusionais.