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Medicina · FGV · 2023

Questão comentada de Medicina

Paciente feminina, 37 anos, testemunha de Jeová, hipertensa, diabética, com antecedente de miomatose uterina e sangramento vaginal recorrente, procura o pronto-socorro por quadro de astenia em piora nos últimos dias e palidez cutânea. Ao exame físico, em regular estado geral, vigil, lúcida, orientada em tempo e espaço, hipocorada +++/4+, hidratada, ausculta cardíaca e pulmonar sem alterações, FC 87 bpm, FR 16 irpm, PA 120x75 mmHg. Exames laboratoriais evidenciando Hb 6.7, Ht 20.8, leucócitos 7500, plaquetas 550.000, Ur 37, Cr 0.7, Na 137, K 4.1. Assinale a opção que apresenta a conduta mais adequada.

Gabarito: E

A questão mistura anemia importante com um ponto clássico de bioética e direito médico: a paciente é adulta, lúcida, orientada e, por ser testemunha de Jeová, pode recusar transfusão de sangue. Em medicina, não basta olhar só o número da hemoglobina; você precisa avaliar instabilidade hemodinâmica, gravidade clínica e, principalmente, a vontade da paciente quando ela tem capacidade decisória. Aqui, apesar da Hb de 6,7 g/dL e da palidez, ela não está em choque, não tem sinais de instabilidade e está consciente para decidir. Isso faz toda a diferença. O princípio da autonomia exige respeitar a recusa informada de tratamento, inclusive transfusão, quando a paciente é capaz. No Brasil, o direito de aceitar ou recusar procedimento é protegido pela Constituição, pelo Código de Ética Médica e pela lógica do consentimento informado. Então, a conduta correta é conversar, esclarecer riscos e benefícios, registrar adequadamente a decisão e oferecer alternativas compatíveis com a crença da paciente. Em anemia por sangramento uterino, isso pode incluir ferro oral ou intravenoso, controle do sangramento, tratamento hormonal e, se necessário, outras estratégias de conservação sanguínea. O objetivo é tratar sem atropelar a religião e sem transformar o pronto-socorro em arena de família e equipe em disputa. A banca quer ver se você cai na armadilha do “Hb baixa = transfusão obrigatória”. Não é assim. Em paciente estável e competente, a transfusão não pode ser imposta contra a vontade, e a assistência deve ser individualizada, respeitando autonomia e oferecendo opções terapêuticas não transfusionais.

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