Homem de 82 anos de idade é trazido às pressas ao consultório, por conta de uma perda súbita da visão do olho direito, indolor e sem causa aparente. A acuidade visual corrigida é de vultos no olho direito e de 20/40 no olho esquerdo, ambos pseudofácicos. A pressão intraocular é de 13 mmHg em ambos os olhos. A fundoscopia revela um fundo opaco e pálido, estreitamento arteriolar difuso e mancha vermelho-cereja na fóvea. Assinale a opção que apresenta os dados pertinentes ao quadro descrito.
- A)Trata-se de uma oclusão da veia central da retina, com trombose e hemorragia foveolar, podendo estar relacionada à ateroesclerose, hipertensão arterial, diabetes e dislipidemia. Requer tratamento imediato com fotocoagulação a laser para impedir o surgimento do glaucoma neovascular.
Errada: descreve oclusão da veia central da retina, que costuma cursar com hemorragias em chama e edema, não com mancha vermelho-cereja.
- B)Trata-se de uma oclusão da artéria central da retina, podendo estar relacionada à arterite de células gigantes, podendo necessitar de tratamento imediato com corticoterapia sistêmica (pulsoterapia), hipotensores oculares e massagens oculares, bem como referir o paciente para um clínico geral.
Certa: o quadro é compatível com oclusão da artéria central da retina, e em idoso deve-se lembrar de arterite de células gigantes e manejo urgente.
- C)Trata-se de uma neuropatia óptica isquêmica anterior não arterítica, relacionada com acidente vascular encefálico, diabetes e à dislipidemia, com prognóstico reservado e requer tratamento imediato com agentes trombolíticos.
Errada: neuropatia óptica isquêmica anterior não faz o padrão clássico de fundo opaco com mancha vermelho-cereja e não é tratada com trombólise de rotina.
- D)Trata-se de neuroretinite óptica com comprometimento macular (estrela macular) e tromboembolismo, podendo estar associada a arritmias formadoras de êmbolos e às placas de ateroma nas carótidas. Requer tratamento com drogas antiarrítmicas e fotocoagulação a laser.
Errada: neuroretinite com estrela macular é outro diagnóstico, geralmente com edema de disco e exsudatos em estrela, não com esse fundo pálido típico.
- E)Trata-se de um episódio de amaurose fugaz, relacionada a placas ateromatosas nas carótidas, que uma vez liberadas, funcionam como êmbolos e ocluem os vasos retinianos, o que pode justificar o exame de eco-doppler colorido das carótidas e das vertebrais e ter a eventual presença do êmbolo de Hollenhorst. Requer tratamento com trombolíticos e anticoagulantes.
Errada: amaurose fugaz é episódio transitório de perda visual, não perda persistente com sinais fundoscópicos de oclusão arterial.
Gabarito: B
O quadro descrito é bem típico de oclusão da artéria central da retina (OACR): perda súbita, indolor e importante da visão, fundo de olho pálido, estreitamento arteriolar difuso e a clássica mancha vermelho-cereja na fóvea. Isso acontece porque a retina isquêmica fica esbranquiçada, enquanto a fóvea, por ser mais fina e receber parte da cor da coroide, permanece avermelhada. É uma emergência oftalmológica, porque a retina tolera muito mal a falta de fluxo sanguíneo. Em paciente idoso, a primeira preocupação é pensar em embolia por aterosclerose e também em arterite de células gigantes, especialmente se houver cefaleia, claudicação mandibular ou mal-estar. Nesses casos, o manejo imediato pode incluir corticoterapia sistêmica se houver suspeita de arterite, além de encaminhamento urgente para avaliação clínica e investigação vascular. As manobras como massagem ocular e medidas para reduzir a pressão intraocular podem ser tentadas nas primeiras horas, mas o prognóstico costuma ser ruim, e não existe um tratamento milagroso que recupere a visão na maioria dos casos. A ideia central da prova é reconhecer o padrão clínico e lembrar que o quadro pede abordagem urgente, e não conduta de rotina. Por isso a alternativa B está correta: ela descreve a oclusão da artéria central da retina e cita a associação com arterite de células gigantes e a necessidade de abordagem imediata. As demais opções misturam diagnósticos e condutas de outras doenças retinianas ou neurológicas.