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Medicina · FGV · 2023

Questão comentada de Medicina

Paciente idosa, hipertensa e diabética, encontrava-se em pós-operatório de cirurgia ortopédica com boa evolução clínica. Ao passar a visita médica no quarto dia de internação, o médico a encontra com contenção mecânica de membros superiores e sonolenta, mobilizando os quatro membros e com relato de agitação importante no período noturno, necessitando de administração de antipsicóticos venosos. Sobre o quadro apresentado, é correto afirmar que:

Gabarito: C

Esse caso tem cara de delirium no pós-operatório, um quadro agudo de alteração da atenção e da cognição, muito comum em idosos internados, especialmente após cirurgia, dor, privação de sono, uso de sedativos e antipsicóticos, além de doenças clínicas associadas. A pista está na oscilação do comportamento: à noite houve agitação importante, mas pela manhã ela está sonolenta. Isso é bem típico de delirium, que pode alternar formas hiperativa, hipoativa ou mista. Na prática, o delirium hiperativo chama atenção pela agitação, irritabilidade, tentativas de retirada de dispositivos e necessidade de contenção, mas nem sempre é só “bagunça comportamental”: ele pode ser um marcador de piora clínica, infecção, hipóxia, distúrbio metabólico, dor mal controlada ou outro desconforto orgânico. Por isso, ele funciona como um sinal de alerta e pede investigação da causa de base, não apenas contenção e remédio para dormir. A alternativa C está correta porque o delirium hiperativo é mesmo um preditor prognóstico ruim e pode anunciar deterioração clínica, laboratorial ou sofrimento da paciente. O quadro não deve ser tratado como simples agitação psiquiátrica. A lógica é procurar e corrigir o gatilho: avaliar infecção, retenção urinária, constipação, hipóxia, efeitos de medicamentos, distúrbios hidroeletrolíticos e dor. Isso está em linha com a doutrina clássica de geriatria e medicina hospitalar: delirium é síndrome aguda, flutuante e sempre secundária a causa clínica até prova em contrário. Um detalhe importante: o uso de antipsicótico pode ser necessário para controle sintomático em casos selecionados, mas isso não substitui a investigação da causa. Já benzodiazepínicos, em geral, pioram delirium, exceto em situações específicas como abstinência alcoólica ou sedação muito particular. E tomografia de crânio não é rotina para todo delirium, só entra se houver suspeita neurológica focal, trauma, rebaixamento inexplicado ou outra indicação clínica. Em resumo: delirium pós-operatório em idosa é daqueles quadros em que o cérebro está “gritando” que o corpo tem um problema.

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