Mulher de 70 anos, hipertensa, diabética e renal crônica em tratamento conservador, com clearance de creatinina de 15ml/min em sua última consulta, é admitida na emergência taquipneica, queixando-se de dor torácica pleurítica de três dias de evolução progressivamente pior. Exames da admissão revelando azotemia grave e ECG supra ST difuso em todas as derivações de parede anterior, além de infra de PR. O tratamento de escolha para o quadro de dor torácica é:
- A)colchicina;
Errada, porque colchicina é usada em pericardite aguda idiopática/viral, mas não trata a causa da pericardite urêmica.
- B)aspirina + estatina e controle do duplo produto;
Errada, pois aspirina e estatina não resolvem pericardite urêmica, e o padrão do ECG sugere pericardite, não síndrome coronariana aguda.
- C)pericardiocentese;
Errada, porque pericardiocentese é indicada principalmente se houver tamponamento ou grande derrame com repercussão hemodinâmica.
- D)hemodiálise;
Certa, porque a pericardite urêmica em doença renal avançada tem como tratamento de escolha a hemodiálise urgente.
- E)cineangiocoronariografia de urgência.
Errada, pois a cineangiocoronariografia seria para suspeita de infarto agudo do miocárdio, o que não é o quadro mais provável aqui.
Gabarito: D
Em paciente com insuficiência renal avançada, dor torácica pleurítica, atrito/pericardite no ECG com supra de ST difuso e infra de PR fazem pensar em pericardite urêmica. Aqui o problema não é um evento coronariano agudo típico, mas uma complicação da azotemia grave. Nessa situação, o tratamento de escolha é corrigir a causa de base: iniciar hemodiálise com urgência. A melhora costuma ser rápida quando a pericardite é urêmica ou associada à diálise inadequada. A lógica é simples: se o rim não limpa, toxinas urêmicas continuam irritando o pericárdio. Analgésico e anti-inflamatório até podem aliviar sintomas em alguns cenários, mas não resolvem o gatilho principal. Em pericardite urêmica, a diálise é a terapêutica central, e em muitos casos a própria resposta ao tratamento confirma o diagnóstico na prática. Colchicina, aspirina e outras medidas típicas da pericardite idiopática ou viral não são a escolha ideal aqui, especialmente em doença renal avançada, em que o quadro é dominado pela uremia. Pericardiocentese fica reservada para tamponamento cardíaco ou derrame volumoso com instabilidade, e cineangiocoronariografia seria o caminho se a suspeita principal fosse infarto com supra de ST, o que não é o caso pelo padrão difuso do ECG e pelo contexto clínico. Então, em prova, pense assim: insuficiência renal importante + dor pleurítica + ECG de pericardite = pericardite urêmica. E pericardite urêmica se trata com hemodiálise, sem rodeio. É uma daquelas questões em que o rim manda no coração.