Criança de 4 anos com dor abdominal, náuseas com vômitos e diarreia com sangue há 1 semana, é trazida pelos pais para atendimento de urgência. Esta é a terceira vez que trazem o filho ao pronto-socorro, tendo sido medicado com hidratação venosa e sintomáticos. Referem que parou de urinar desde a noite anterior. Ao exame, a criança está lúcida e orientada, desidratada +/4+, hipocorada 3+/4+, ictérica 2+/4+, acianótica. PA 140 x 80 mmHg, FC 130 bpm, eupneica e afebril. Restante do exame, digno de nota apenas petéquias em membros inferiores. Exames laboratoriais com Hb 7g/dL, HTº 22%, leucometria 12.000 células/mm3 e plaquetas 70.000 células/mm3 . Teste de Coombs direto negativo e esfregaço periférico com esquizócitos. Ureia 120 mg/dL, creatinina 4.0 mg/dL. O diagnóstico microbiológico foi realizado pelo swab retal. O tratamento deve ser feito com
- A)expansão volêmica intravenosa vigorosa e opiáceo.
Errada, porque opiáceo não trata a SHU e pode mascarar a evolução clínica, enquanto o cuidado central é suporte volêmico e vigilância renal.
- B)ciprofloxacina e metronidazol e expansão volêmica intravenosa vigorosa.
Errada, porque antibióticos como ciprofloxacina podem piorar a liberação de toxina em diarreia por EHEC e metronidazol não tem papel nesse quadro.
- C)expansão volêmica intravenosa vigorosa.
Certa, porque a SHU exige principalmente expansão volêmica intravenosa vigorosa e suporte clínico, com monitorização de função renal e hematológica.
- D)expansão volêmica intravenosa vigorosa e anti-inflamatórios.
Errada, porque anti-inflamatórios podem agravar a lesão renal aguda e não fazem parte do tratamento da SHU.
- E)ciprofloxacina e expansão volêmica intravenosa vigorosa.
Errada, porque ciprofloxacina não é indicada na SHU por possível piora do quadro toxigênico, apesar de a hidratação estar correta.
Gabarito: C
O quadro é bem típico de síndrome hemolítico-urêmica (SHU) pós-diarreia, geralmente desencadeada por toxina de bactéria produtora de Shiga, como a E. coli entero-hemorrágica. A criança chega com a tríade clássica: anemia hemolítica microangiopática, plaquetopenia e lesão renal aguda, além de esquizócitos no esfregaço e Coombs direto negativo. O swab retal ajuda a confirmar o agente intestinal, mas o tratamento não muda por isso: o foco é suporte intensivo. Na prática, o que salva aqui é hidratação venosa vigorosa, de preferência precoce, para tentar melhorar a perfusão renal e reduzir a piora da injúria aguda. Muitas vezes o manejo também inclui correção de distúrbios hidroeletrolíticos, controle de pressão arterial e diálise se houver indicação. Antibiótico, anti-inflamatório e antiperistáltico costumam ser más ideias nesse cenário, porque podem piorar a liberação de toxina ou a função renal. Por isso, o gabarito é a letra C: expansão volêmica intravenosa vigorosa. A conduta é essencialmente de suporte, sem “atirar para todos os lados” com medicações que não tratam a fisiopatologia do problema. Em concursos, a banca gosta de misturar disenteria com insuficiência renal para ver se você reconhece a SHU e não cai na tentação de tratar como gastroenterite comum.