Paciente de 18 anos, masculino, apresenta queixa de episódios frequentes de palpitação. O exame físico mostra frequência cardíaca variando de 160 a 180bpm; pressão arterial = 110/70mmHg; ritmo cardíaco irregular, com bulhas normofonéticas e sem sopros. Eletrocardiograma apresentou traçado compatível com taquicardia supraventricular (TSV). Após reversão com adenosina, foi realizado um Holter 24 horas, durante o qual o paciente não apresentou sintomas. Esse exame evidenciou ritmo de base variável alternando TSV e ritmo sinusal com intervalo P-R curto, onda delta e prolongamento do QRS. O diagnóstico desse jovem é:
- A)doença de Fabry;
Errada: doença de Fabry pode causar cardiomiopatia e arritmias, mas não explica o padrão eletrocardiográfico de pré-excitação com onda delta.
- B)amiloidose cardíaca;
Errada: amiloidose cardíaca é doença infiltrativa, típica de pacientes mais velhos, e não gera esse traçado clássico de via acessória.
- C)síndrome de Brugada;
Errada: síndrome de Brugada dá alterações em V1-V3 e risco de morte súbita, não PR curto com onda delta e QRS alargado.
- D)síndrome de Lown-Ganong-Levine;
Errada: a síndrome de Lown-Ganong-Levine cursa com PR curto e QRS normal, sem onda delta, então não bate com o caso.
- E)síndrome de Wolff-Parkinson-White.
Certa: o conjunto de TSV, PR curto, onda delta e QRS alargado é típico de síndrome de Wolff-Parkinson-White.
Gabarito: E
O quadro é de uma taquicardia supraventricular em um jovem com sinais de via acessória. Isso já acende a luz de “pré-excitação”: o impulso elétrico não segue apenas o caminho normal pelo nó AV e pelo feixe de His, mas também pode passar por uma conexão anômala, o que bagunça o ritmo e facilita taquiarritmias. No Holter, o achado-chave foi ritmo de base alternando TSV e ritmo sinusal com intervalo P-R curto, onda delta e prolongamento do QRS. Esse trio é quase um carimbo clássico da síndrome de Wolff-Parkinson-White: PR curto porque a condução desvia do atraso fisiológico do nó AV, onda delta porque parte do ventrículo é ativada precocemente, e QRS alargado porque a despolarização fica “espalhada” no tempo. A presença de episódios de palpitação e TSV por reentrada também combina muito com WPW, já que a via acessória funciona como atalho elétrico e favorece circuitos de reentrada. Na prática, o raciocínio é: jovem + TSV + PR curto + onda delta + QRS alargado = WPW até prova em contrário. A síndrome de Lown-Ganong-Levine pode lembrar pela ideia de PR curto, mas ela não tem onda delta nem alargamento do QRS. Ou seja, o detalhe do traçado é o que mata a charada. Como fundamento doutrinário, a associação entre PR curto, onda delta e pré-excitação ventricular é a descrição clássica de Wolff-Parkinson-White nos textos de cardiologia e eletrocardiografia.