Um servidor de 50 anos apresenta há 2 semanas sintomas dispépticos. História patológica pregressa e familiar: sem particularidades. Ele desconhece alergia a medicamentos. Nesta manhã, ele foi submetido a uma endoscopia digestiva alta: lesão ulcerada gástrica, sem estigmas de sangramento recente. O teste de urease revelou-se positivo. A análise histopatológica está em curso. A conduta inicial mais adequada, seguindo as recomendações do IV Consenso Brasileiro sobre a infecção por Helicobacter pylori (HP) é
- A)propor tratamento de primeira linha – terapia tríplice composta pela associação de inibidor de bomba de prótons (IBP), amoxicilina e claritromicina por 7 dias e; não há necessidade do uso de IBP após o esquema de erradicação do HP
Errada: o esquema pode até lembrar a terapia tríplice, mas o tempo de 7 dias é inferior ao recomendado, e ainda faltou manter o IBP após a erradicação por causa da úlcera.
- B)propor tratamento de primeira linha – terapia tríplice composta pela associação de IBP, azitromicina e levofloxacina por 14 dias e; não há necessidade do uso de IBP após o esquema de erradicação do HP
Errada: azitromicina e levofloxacina não compõem o esquema clássico de primeira linha descrito no consenso, e 14 dias sem a combinação adequada também não resolve a conduta.
- C)propor tratamento de primeira linha – terapia tríplice composta pela associação de IBP, amoxicilina e claritromicina por 14 dias e; IBP por 4 a 8 semanas após tratamento do HP
Certa: é a terapia tríplice de primeira linha com IBP, amoxicilina e claritromicina por 14 dias, seguida de IBP por 4 a 8 semanas para cicatrização da úlcera.
- D)propor tratamento de segunda linha – terapia quádrupla composta pela associação de um IBP, furazolidona, amoxicilina e subcitrato de bismuto coloidal por 7 dias e; IBP por 4 a 8 semanas após tratamento do HP
Errada: trata como segunda linha, mas o caso é de tratamento inicial; além disso, furazolidona, amoxicilina e bismuto não correspondem ao esquema indicado como primeira abordagem aqui.
- E)propor tratamento de segunda linha – terapia quádrupla composta pela associação de um IBP, furazolidona, amoxicilina e subcitrato de bismuto coloidal por 7 dias e; não há necessidade do uso de IBP após o esquema de erradicação do HP.
Errada: embora traga um esquema de segunda linha, ele não é a proposta inicial do caso e ainda omite a manutenção do IBP após a erradicação.
Gabarito: C
Na infecção por Helicobacter pylori, o tratamento não é só “matar a bactéria”: quando há úlcera gástrica, você também precisa dar tempo para a cicatrização da lesão. Por isso, após a erradicação do HP, mantém-se o inibidor de bomba de prótons por mais algumas semanas, em geral 4 a 8 semanas, para completar a cicatrização da úlcera. É o tipo de detalhe que a banca adora cobrar porque parece simples, mas troca a terapêutica inteira por um pedacinho do esquema. No IV Consenso Brasileiro sobre a infecção por HP, o esquema de primeira linha clássico inclui IBP + amoxicilina + claritromicina por 14 dias, em especial quando não há alergia a medicamentos e não há dado de resistência que exija outra estratégia. Aqui, o teste de urease veio positivo, o que já sustenta a infecção por HP no contexto endoscópico, e a presença de úlcera gástrica reforça a necessidade de erradicação. O ponto-chave é que, havendo úlcera gástrica, o IBP não termina junto com os antibióticos. A erradicação cuida do germe, mas o estômago ainda precisa de proteção para cicatrizar. Por isso, a conduta adequada é tratar com terapia tríplice por 14 dias e depois manter IBP por 4 a 8 semanas. Assim, o gabarito C está correto porque une os dois passos certos: esquema inicial de erradicação recomendado e continuidade do IBP após o tratamento para cicatrização da úlcera.