Paciente de 63 anos, quinto dia de pós-operatório de cirurgia cardíaca para revascularização miocárdica. Radiografia de tórax de controle revelou volumoso derrame pleural à esquerda. A despeito do volumoso derrame pleural, o paciente segue em bom estado geral, está afebril e apresenta exames laboratoriais dentro da normalidade. Toracocentese diagnóstica revelou líquido pleural leitoso e espesso. Assinale a opção que indica a principal hipótese diagnóstica e o exame capaz de esclarecer a suspeita clínica, respectivamente.
- A)Quilotórax e dosagem de triglicerídeos do líquido pleural.
Correta: o quadro sugere quilotórax, e a dosagem de triglicerídeos no líquido pleural é o exame mais útil para confirmar a suspeita.
- B)Empiema pleural e dosagem do pH do líquido pleural.
Errada: empiema costuma cursar com febre, toxemia e líquido purulento, não com paciente estável e líquido leitoso.
- C)Derrame transudativo e dosagem de LDH do líquido pleural.
Errada: derrame transudativo não explica o aspecto leitoso espesso do líquido, e LDH não é o exame-chave para essa hipótese.
- D)Pseudoquilotórax e dosagem de colesterol do líquido pleural.
Errada: pseudoquilotórax é mais associado a derrames crônicos, geralmente com colesterol elevado, e não ao pós-operatório recente.
- E)Derrame exsudativo e dosagem de proteínas do líquido pleural.
Errada: o aspecto e o contexto não apontam simplesmente para um exsudato inespecífico, e proteínas não esclarecem a principal suspeita.
Gabarito: A
Depois de cirurgia cardíaca, um derrame pleural volumoso com líquido leitoso e espesso acende uma luz bem característica: pense em quilotórax. Isso acontece quando há lesão ou obstrução do ducto torácico, permitindo vazamento de quilo para o espaço pleural. O contexto pós-operatório é clássico, e a aparência leitosa já é uma pista forte, mas não fecha sozinha o diagnóstico. O exame que mais ajuda a confirmar a suspeita é a dosagem de triglicerídeos no líquido pleural. Em geral, valores elevados de triglicerídeos no líquido pleural favorecem muito quilotórax, e a presença de quilomícrons pode confirmar quando necessário. Como o líquido tem aspecto gorduroso, a ideia é provar que existe gordura intestinal no derrame, e não apenas um líquido turvo qualquer. O paciente estar afebril, em bom estado geral e com exames laboratoriais normais também joga contra infecção pleural. Empiema costuma vir com toxemia, febre, dor, piora clínica e líquido purulento, não simplesmente leitoso. Pseudoquilotórax existe, mas é típico de derrames crônicos, com colesterol alto e curso bem diferente do cenário agudo pós-cirúrgico. Então o raciocínio é simples: pós-operatório de cirurgia cardíaca + derrame pleural leitoso = suspeite de quilotórax, e confirme com triglicerídeos no líquido pleural. A banca adora esse tipo de associação clínica direta, sem rodeios.