Paciente, 16 anos, refere que 1 hora após a aplicação da primeira dose da vacina COVID do laboratório Pfizer, apresentou tontura e perdeu a consciência. Foi levado rapidamente por sua mãe ao pronto socorro. Apresentava hipotensão com pressão arterial sistólica 75mmHg. Foi tratado com hidratação venosa, oxigenioterapia e adrenalina, com melhora dos sintomas. Nega outros sintomas. Refere que já apresentou angioedema palpebral bilateral após uso de dipirona e ibuprofeno e desde então evita esses medicamentos. Sobre o caso relatado acima, assinale a afirmativa correta.
- A)O diagnóstico de anafilaxia é improvável, pois não ocorreu acometimento cutâneo.
Errada, porque anafilaxia pode ocorrer sem acometimento cutâneo, especialmente quando há manifestação cardiovascular grave.
- B)O diagnóstico provável é distúrbio vaso vagal desencadeado pelo estresse causado pela vacinação
Errada, porque distúrbio vasovagal não costuma cursar com hipotensão tão intensa e necessidade de adrenalina, além de não explicar bem o quadro descrito.
- C)A dosagem de triptase sérica, no pronto socorro, até 2 horas após o início da reação teria sido útil no diagnóstico de anafilaxia.
Certa, porque a dosagem de triptase sérica nas primeiras 1 a 2 horas pode ajudar a confirmar anafilaxia por mastócitos, embora não seja obrigatória para o diagnóstico.
- D)O paciente não deveria ter sido vacinado, pois indivíduos com história de hipersensibilidade imediata (urticária e/ou angioedema) por medicamentos não devem ser imunizados com vacina de COVID.
Errada, porque história de urticária ou angioedema por analgésicos não impede, por si só, a imunização com vacina de COVID; a avaliação depende do componente da vacina e do tipo de reação prévia.
- E)O excipiente polissorbato 80, presente na vacina da Pfizer, é o responsável pela reação apresentada.
Errada, porque na vacina Pfizer o principal suspeito de hipersensibilidade é o polietilenoglicol (PEG), não o polissorbato 80.
Gabarito: C
Anafilaxia é uma reação de hipersensibilidade imediata, grave e potencialmente fatal, que pode ocorrer com pele, via respiratória, cardiovascular ou gastrointestinal, mas não precisa obrigatoriamente ter lesão cutânea para existir. Neste caso, a queda importante da pressão, a perda de consciência e a melhora após adrenalina apontam muito mais para anafilaxia do que para um simples mal-estar da vacinação. Em anafilaxia, o diagnóstico é principalmente clínico: história + sintomas + resposta ao tratamento valem ouro, porque o paciente não pode ficar esperando exame para piorar mais um pouco. A triptase sérica pode ajudar como exame de apoio, pois costuma se elevar em reações anafiláticas mediadas por mastócitos. O ideal é coletá-la o quanto antes, de preferência nas primeiras 1 a 2 horas após o início dos sintomas, e comparar depois com valor basal, se possível. Então, em um pronto socorro, essa dosagem teria sido útil para reforçar o diagnóstico, embora um resultado normal não exclua anafilaxia. O quadro vaso vagal costuma dar palidez, sudorese, bradicardia e recuperação rápida com decúbito e medidas simples, o que não combina bem com hipotensão importante tratada com adrenalina. Já a história de angioedema por dipirona e ibuprofeno não contraindica, por si só, a vacinação contra COVID. As vacinas de mRNA, como a Pfizer, têm como preocupação principal alergia a componentes específicos, sobretudo o polietilenoglicol (PEG), e não qualquer alergia medicamentosa prévia. Em resumo: a pergunta quer que voce reconheça anafilaxia mesmo sem pele “gritando socorro”. E a triptase precoce poderia ter ajudado no diagnóstico. É aquele tipo de questão em que a banca testa se voce sabe que alergia grave nem sempre vem com urticária bonita para fotografar.