Um paciente negro, 48 anos de idade, é encaminhado para consulta com hematologista devido à presença de neutropenia em dois hemogramas consecutivos, realizados com intervalos de 30 dias, sem outras alterações nas séries branca, vermelha ou nas plaquetas. A contagem absoluta de neutrófilos nos dois hemogramas foi, respectivamente, de 1.350 e 1450/µL. O paciente não tem história de infecção recorrente ou infecção grave; um hemograma realizado cinco anos antes apresenta padrão similar, em relação à neutropenia (contagem absoluta: 1.200/µL). Faz uso crônico de anti-hipertensivo (losartana), sem outras comorbidades. Diante desse quadro, assinale a opção que apresenta a hipótese diagnóstica mais provável para o caso.
- A)Neutropenia étnica benigna.
Correta: neutropenia leve, isolada, crônica e sem infecções em paciente negro é o quadro clássico de neutropenia étnica benigna.
- B)Síndrome de Kostmann.
Incorreta: a síndrome de Kostmann causa neutropenia congênita grave, geralmente com infecções bacterianas recorrentes desde a infância.
- C)Neutropenia auto-imune.
Incorreta: a neutropenia autoimune costuma ter outro contexto clínico e não explica tão bem uma neutropenia estável por anos em paciente assintomático.
- D)Neutropenia constitucional severa.
Incorreta: a neutropenia constitucional severa é uma forma grave, geralmente com ANC bem mais baixo e maior risco infeccioso, o que não ocorre aqui.
- E)Neutropenia cíclica.
Incorreta: a neutropenia cíclica apresenta variação periódica dos neutrófilos, com episódios de neutropenia mais profunda e sintomas intermitentes.
Gabarito: A
Neutropenia, em prova, não é só olhar o número e sair correndo. O contexto manda muito: se a contagem está discretamente baixa, é estável ao longo do tempo, o paciente não tem infecções de repetição e o restante do hemograma é normal, você deve pensar em uma variante benigna, e não em uma doença grave de medula ou de destruição periférica. Neste caso, há um homem negro, assintomático, com neutropenia leve e persistente há anos, sem outras citopenias e sem história infecciosa importante. Isso combina muito com a chamada neutropenia étnica benigna, também conhecida como neutropenia associada à ancestralidade africana, em geral relacionada ao fenótipo Duffy-null. O ponto central é que a pessoa vive bem assim, sem maior risco clínico na prática habitual. Já as neutropenias graves congênitas, cíclicas ou autoimunes costumam trazer outra história: infecções recorrentes, quadros mais intensos, flutuação importante da contagem ou início precoce. Aqui, nada disso aparece. A estabilidade por anos pesa bastante a favor de uma condição constitucional e benigna, não de uma síndrome hematológica agressiva. Resumo de prova: neutropenia leve, isolada, crônica, em paciente negro, sem infecções e com hemograma restante normal - pense primeiro em neutropenia étnica benigna. É o tipo de questão em que a melhor conduta mental é menos drama e mais epidemiologia.